Cine Negras debate adoção interracial

Para estimular o debate encabeçado pela coordenadora do Negras foi exibida a comédia francesa Ele Tem Mesmo os Seus Olhos

Por Greice Mara

O auditório da Escola de Nutrição da UFBA, na última sexta-feira (7),  foi mais uma vez palco do Cine Negras. O evento consiste na exibição de um filme que aborde a temática negra com debate. Nesta edição, o filme exibido foi “Ele Tem Mesmo os Seus Olhos”, dirigido por Lucien Jean-Baptiste e  a debatedora foi a coordenadora do Negras – Núcleo de Estudos e Pesquisas em Gênero, Raça e Saúde, Liliane de Jesus Bittencourt.

O filme se passa na França e narra a história de um casal de negros – Paul e Sali – que, depois de muita espera, realiza o sonho de adotar uma criança. O bebê se chama Benjamin, tem seis meses, mas com um detalhe: é loiro de olhos azuis. Até aí tudo bem, o problema é que a família de Sali, que tem origem senegalesa, não conseguem aceitar a chegada do pequeno por conta de suas tradições. Além disso, os pais de primeira viagem têm que lidar com a desconfiança da assistente social Madame Mallet.

Durante a discussão a respeito do filme,  Liliane falou sobre a adoção interracial – tema central no filme. A coordenadora do Negras considera que boa parte das situações expostas no filme são vistas diariamente no nosso país. No filme, há diversos momentos em que Sali precisa se reafirmar como mãe de Benjamin, já que muitas pessoas tinham o costume de confundi-la com a babá da criança. A adoção interracial foi considerada, ao longo do debate, bastante complicada tanto para quem adota quanto para quem é adotado, já que há sempre uma necessidade de explicação por parte dos envolvidos.

Liliane fez uso de sua experiência com adoção – já que adotou uma criança – para contextualizar a temática do filme. Ela falou sobre o quão burocrático e complexo é o processo de adoção e citou, por exemplo, o preenchimento do formulário, que considera uma das fases mais difíceis do processo. “É como se você fosse num shopping e escolhesse a roupa que quer, o sapato que quer… É muito angustiante”, afirma. Entretanto, a coordenadora considera que o formulário é importante, já que é o momento para refletir acerca da sua disponibilidade – principalmente emocional – e limitações.

Além disso, Liliane levantou a questão da adoção de crianças negras. Em 2010, menos de um terço dos pais à busca de uma criança no Cadastro Nacional de Adoção deixava aberta a possibilidade de uma adoção de meninas e meninos negros; no caso das crianças pardas, o índice não chegava a 60%.

A preferência por crianças brancas faz com que as negras se tornem as que, em maioria, ficam até a idade adulta nos abrigos e dificilmente conseguem ter uma perspectiva positiva de vida. A coordenadora questionou também a falta de amparo do Estado em relação a esses jovens recém saídos de abrigos que, segundo ela, “acabam sendo deixados à própria sorte”.

Outra questão levantada após a sessão foi o fato de que muitos dos filmes que tratam da temática negra são de comédia. Liliane considera o uso do gênero mecanismo para suavizar esses assuntos. Outros conteúdos vistos de forma mais discreta no longa é a temática da imigração; a abordagem policial com imigrantes – existe uma cena em que mulheres negras e imigrantes são abordadas de forma grosseira pela polícia; e a questão das tradições: como o avanço da sociedade permite mudanças em questões que antes eram enraizadas em determinadas comunidades.

O Cine Negras é um espaço destinado para exposição de vídeos e documentários que levantem discussões sobre  as condições de vida do povo negro, perpassando por todas as questões sociais. O espaço tem como principal finalidade provocar debates que  levem a  reflexões mais profundas acerca do direito à vida, acesso a saúde e cidadania.

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