Conexão Dança encerra atividades com espetáculo “Cabaça”

Grupo de Dança Contemporânea da UFBA estrela montagem de etno-dança que simboliza a fertilidade. Confira entrevista com a professora Carmen Paternostro, organizadora do evento. 

*Por Virgínia Andrade 

A proposta era estreitar os laços de dança entre Alemanha e Brasil, e o resultado da experiência não poderia ter sido melhor. Idealizado por Carmen Paternostro, professora doutora da Escola de Dança da UFBA, o projeto Conexão Dança Alemanha-Bahia, que teve início dia 13 de agosto, encerrou as atividades na última sexta-feira (18), com o espetáculo “Cabaça – uma homenagem a Walter Smetak” realizado no Teatro do Movimento. Estreia do Grupo de Dança Contemporânea da UFBA, a apresentação tem a direção de Carmen e da professora Gilsamara Moura. Em breve conversa com a equipe da Agenda Arte e Cultura, Carmen avaliou a semana da Conexão Dança, falou sobre o “Cabaça” e criticou o comportamento radical dos que negam a herança e forte influência europeia na cultura brasileira.

A professora Carmen Paternostro. Foto: Virgínia Andrade
A professora Carmen Paternostro.
Foto: Virgínia Andrade

Agenda Arte e Cultura – A partir de que surgiu a ideia de promover a Conexão Dança Alemanha-Bahia?

Carmen Paternostro – Do meu projeto de pesquisa. Eu escrevi dois livros sobre a dança expressionista e o teatro coreográfico, enfatizando os laços que nós e essa UFBA criada por Edgard Santos temos com culturas europeias. A Escola de Dança foi fundada por alemães. A de Música teve professores como Smetak, por exemplo. Então, a ideia era estudar a nossa escola, a partir desses laços. Afinal, nós tivemos pelo menos oito professores suíço-alemães.

Agenda – “Cabaça” marcou o encerramento da Conexão. Como idealizadora, qual avaliação você faz do projeto?

Carmen – Muito positiva. É um momento de celebração para nós, idealizadores. As pessoas gostaram da programação, os assuntos das mesas estavam bem conectados, assim como as oficinas, e o trabalho do GDC (Grupo de Dança Contemporânea da UFBA) coroou essa confraternização. A nossa proposta era tentar, com alunos de terceiro, quarto e quinto semestres, que tivessem uma postura comprometida, fazer um trabalho profissional. E conseguimos isso.

Espetáculo Cabaça. Foto: Virgínia Andrade
Espetáculo Cabaça.
Foto: Virgínia Andrade

Agenda – Qual o conceito do espetáculo?

Carmen – Fertilidade. Na cultura africana, a cabaça representa a fertilidade, assim como a cuia para a cultura indígena e a caixa de Pandora para a grega. Neste projeto procuramos trabalhar a individualidade, respeitando-a acima de tudo, já que cada um tem e traz a sua “cabaça” para ser desenvolvida. Para o GDC (Grupo de Dança Contemporânea) foi um grande desafio, mas eles estão muito bem.

Agenda – O que ficou de mais forte do “Cabaça” em você e nos dançarinos?

Carmen Paternostro – A consciência de que é preciso conectar, criar espaços de convivência, proximidade, sair do facebook e ficar pele a pele, respiração-respiração, para criar uma nova energia – senão começa a esfriar demais. No espetáculo, eles ficam quase o tempo inteiro em cena e era isso que a gente queria.

Agenda – Há planos de entrar em cartaz com o espetáculo em outros lugares?

Carmen – Sim. Vamos para São Paulo fazer a turnê SESC. Depois, vou lutar para que a Alemanha se interesse por nós, afinal é uma conexão. Em 2014, pretendemos rodar com o espetáculo nos espaços da UFBA, num tipo de circuito universitário interno e depois circular pelas cidades do interior, ideia que me interessa muito.

Espetáculo Cabaça. Foto: Virgínia Andrade
Espetáculo Cabaça.
Foto: Virgínia Andrade

Agenda – O que o público que ainda não viu encontrará no espetáculo?

Carmen – Cabaça é um espetáculo etno-musical, de etno-dança, em que se vê toda a Bahia ali dentro, mas se vê a Europa também. A gente não pode fazer um discurso ou africanista, ou eurocentrista, ou indianista. Não faz mais sentido. Nós somos mestiços. Ponto. Não deixamos de ser baianos ao reconhecer nossos laços. É um movimento mais maduro, que respeita heranças e tradição, por isso consegue ser contemporâneo. E eu considero que a gente visita melhor a nossa cultura que qualquer outro. É possível fazer uma bela dança afro sem brigar com o euro. Negar que existe uma herança europeia é bobagem. Nossa herança é euro-afro-ameríndia-mestiça-brasileira.

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Carmen Paternostro é dançarina, coreógrafa e diretora de espetáculos, licenciada em dança pela Universidade Federal da Bahia. Professora doutora da Escola de Dança da UFBA, tem mestrado em Dança pelo Programa de Pós-Graduação em Dança da UFBA e doutorado em Dança Expressionista, a Dança-Teatro e o Teatro Coreográfico na Alemanha e na Bahia. Responsável pela criação do Grupo Intercena (1976-78) e (1990-2008), do Calcutta Dance Theatre (1979-81) e do Grupo Pagu de Teatro Dança (1983-85), coleciona entre os diversos trabalhos os espetáculos: O que é isso Gabeira? (1984), Dendê e Dengo (1990), Lágrimas de um Guarda-Chuva (1997), Sertão Sertões (2001) e Um Caso de Língua.

 

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