Felicidade na quarentena: é possível ser feliz, sem culpa, durante uma pandemia?

Conversamos com o psicólogo social Luciano Sewaybricker e a repórter Helena Galante para entender 

Geovana Oliveira* 

A felicidade é um dos temas mais antigos do mundo. Desde que Tales de Mileto, séculos antes do nascimento do Cristo, afirmou que feliz é quem tem “corpo são e forte, boa sorte e alma bem formada”, diversas foram as definições para esse sentimento, seja por caminhos filosóficos, religiosos ou, mais recentemente, científicos. 

Mas, qual lugar a felicidade ocupa diante de tragédias, como é a pandemia, que já matou mais de 60.000 brasileiros, e escancarou as desigualdades do país? É possível falar sobre felicidade, ou até sentí-la, sem ser insensível com o sofrimento de outras pessoas?

Foi sobre isso que a Agenda conversou com o psicólogo social Luciano Sewaybricker, doutor em psicologia social pela Universidade de São Paulo (USP), e com Helena Galante, editora da coluna A Tal Felicidade, na Veja SP, e criadora do podcast Jornada da Calma. 

É possível ser feliz, sem culpa, durante a pandemia?

A culpa na felicidade
Para falar sobre culpa na felicidade, o psicólogo social Luciano Sewaybricker menciona o pensador alemão Theodor Adorno, que disse em uma de suas conferências que a felicidade é impossível enquanto se souber que alguém sofre em algum lugar do mundo. Apesar de gostar da coletividade que Adorno reforça, Luciano não concorda completamente com o conceito de felicidade por trás dele. 

Segundo o psicólogo, a felicidade ilusória mencionada por Adorno acompanha uma culpa, como se alguém houvesse cometido um erro ou deixado de fazer o correto. Ele explica que a felicidade, para maior parte dos pensadores, é um sentimento ou um estado que é ideal – o sumo bem. E esse sumo bem não pode gerar culpa. Para ele, se o sentimento gerar culpa, ele não é felicidade.

Sewaybricker ressalta que é diferente dizer “me sinto mal por ser feliz”, que inclui a culpa, de dizer  “me sinto mal por alguém sofrer”. Para ele, há algo a se estranhar se alguém não sofre pelo fato de outros sofrerem. Nesse sentido, ele concorda com Adorno, que está alinhado com psicanalistas, como Christophe Dejours: vivemos o sofrimento coletivamente.

Mas isso não quer dizer que precisamos esperar todos estarem bem para sermos felizes. Segundo o psicólogo social, a felicidade não é o oposto da tristeza, do sofrimento ou da dor. Uma das primeiras evidências encontradas quando passou a ser investigada cientificamente, é que ela pode conviver com esses sentimentos “negativos”. É possível sentir coisas muito positivas e também coisas muito negativas. 

“Eu posso sofrer profundamente com os desarranjos do governo no combate à pandemia, mas me sentir feliz por consequência de minhas ações”, diz o psicólogo.

Como falar sobre felicidade na pandemia
Helena Galante explica que para muitas pessoas é complicado estar feliz porque elas colocam muitas condições na frente desse estado. “Eu tenho entendido que a felicidade não precisa ser condicionada a nada do que está acontecendo no mundo”, afirma. 

Quando a editora da Vejinha entendeu que é possível, diante de qualquer situação adversa, encontrar leveza, sentiu vontade de compartilhar isso com outras pessoas. “Eu olho ao redor e vejo as pessoas em grandes sofrimentos, e acho que a gente não pode olhar para outro lado quando vemos que outras pessoas não estão se sentindo bem”. 

Por isso, na sua visão, falar sobre felicidade ficou ainda mais urgente durante a quarentena. “Quando acontece alguma coisa assim, alguma crise que tira a gente do sério, a gente tem que rever muitas coisas. E eu acho que o que chamávamos de vida normal tinha muitas coisas emocionais, principalmente, que a gente não olhava”. Para ela, a pandemia trouxe, para muitas pessoas, a possibilidade de fazerem perguntas sérias e necessárias sobre a vida. “O que eu estou fazendo aqui?” “Qual a importância disso que eu estou fazendo?” “O que eu estou fazendo pelos outros?”.

“Eu não acho que a gente tem que sofrer para aprender, não acredito que o aprendizado se dá no sofrimento, mas acho que tudo que acontece a gente pode usar como uma oportunidade para olhar para o que tem que ser feito agora.”, ressalta. 

Para ela, falar sobre felicidade, seja na coluna ou no podcast, exige uma grande responsabilidade. Como comunicadora, é essencial considerar o contexto em que fala, seja ele um contexto fácil ou difícil. “Que seja um contexto de desigualdade econômica e social, um contexto de fragilidade emocional muito grande, de necessidades de cuidados com a saúde mental, esse é o contexto que a gente tem, a gente vai ter que olhar para isso e olhar pra isso com muita responsabilidade, não dá pra falar de felicidade de uma forma leviana agora.” 

A felicidade pede um olhar honesto
Um dos empecilhos para falar de felicidade e bem-estar no atual momento está na linha que separa o bem-estar pessoal da saúde, seja individual ou pública. Seria irresponsabilidade, por exemplo, afirmar que o bem estar e a saúde mental podem ser desculpas para não cumprir a quarentena.

Segundo Sewaybricker, muitas das dúvidas que vivemos na quarentena não se encaixam na reflexão sobre a melhor vida a se viver, pelo contrário, dizem respeito ao quanto toleramos, suportamos, e aos riscos, até de morte, que aceitamos correr e expor os outros. 

Na sua visão, a felicidade pede um olhar honesto, e isso não é fácil. Mas, para ele, não existem atalhos fora da máxima do filósofo Comte-Sponville: a felicidade exige o amor pela verdade.

“Não adiantam os “7 passos para a felicidade”, o “manual para a vida feliz”, as “dicas de felicidade de fulano de tal”.  Nesse ponto concordo com Comte-Sponville, que é realista ao mesmo tempo em que não deixa de lado a dimensão simbólica: sofremos juntos e sonhamos juntos.”

Para sonhar
Segundo Helena, para chegarmos em um lugar onde é mais confortável para todos, vamos precisar de pessoas sãs, com a mente clara, o coração tranquilo, e cheias de determinação e esperança para fazer todas as mudanças que forem necessárias. 

“Isso para mim é a coisa mais sensível que você poderia fazer por todo mundo e por todo o país: encontrar um centro e um lugar de conexão em que você é útil para todo o contexto onde você está inserido. Em desespero a gente não consegue ajudar ninguém. Então um lugar calmo, que é um lugar lúcido, que não desconsidera quais são as condições do nosso entorno, esse lugar é um lugar feliz.  E desse lugar feliz, a gente resolve qualquer desafio, porque não vamos estar sozinhos, não estamos buscando só uma felicidade individualizada, estamos buscando o bem-estar de todos, e isso me deixa feliz. Isso me dá esperança de que qualquer mudança é possível.”

*voluntária da Agenda Arte e Cultura

**Photo by Victor Garcia on Unsplash

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