Conheça Louti Bahia: publicitário homenageia a história de Salvador com “museu online”

“Amo a História de Salvador” já soma 120 mil seguidores no Facebook e Instagram

Luana Lisboa

Você sabia que a Ladeira de São Bento já foi local de moradia da classe alta de Salvador? E que a Baixa dos Sapateiros já foi rio, pântano e só depois virou rua asfaltada, inclusive cheia de bondinhos elétricos? Tem ideia de como era o Dique do Tororó no iniciozinho do século XX? Bem, se você não é um dos 120 mil baianos que acompanham a “Amo a História de Salvador” nas redes sociais, realmente estava difícil de saber.

Administradas pelo publicitário e especialista em planejamento urbano, Louti Bahia, de 47 anos, as páginas, presentes no Facebook e Instagram, são verdadeiros “museus online” para aqueles que têm interesse no passado da nossa cidade. Além das legendas, resultados de muita pesquisa, Louti atrai seguidores com um acervo de fotos que datam até do século XIX. Hoje, ele conta para a Agenda como tem acesso a elas, como mantém a página e também um pouco sobre sua história de vida.

Quais caminhos você percorreu para criar a Amo a História de Salvador? O que te impulsionou a criar a página?

Bom, com 17 anos, eu passei em Arquitetura na UFBA, fiz até metade do curso e, por questões de política nacional, foi a época de Collor – entre 1990 e 1992 -, as faculdades foram sucateadas, os professores se aposentaram, o curso perdeu qualidade e eu acabei o largando. Mas, eu tinha passado também em Propaganda na Católica. Resolvi cursar, me formei e fiz toda minha carreira em Publicidade e Propaganda. Só que, em 2006, resolvi voltar a estudar Arquitetura e cursei mais alguns semestres. Mas nunca quis efetivamente ser arquiteto. Minha ligação era com as cidades, com urbanismo, coisa que só estudaria nas pós-graduações. Seria um caminho longo até chegar lá, e eu já estava formado e casado na época, não tinha tempo para buscar esse outro caminho. Até que eu descobri dois cursos de pós que eu podia ser admitido com minha formação em Publicidade e Propaganda e mais da metade do curso de Arquitetura. Um em planejamento urbano, o outro em planejamento ambiental. Para minha surpresa, fui aprovado nos dois ao mesmo tempo e resolvi cursar ambos. Tranquei arquitetura e concluí as duas pós graduações.

Daí, resolvi fazer duas pesquisas pessoais. Não são pesquisas financiadas, nem pesquisas acadêmicas. Para isso, resolvi morar 10 meses na Itália estudando o movimento Slow de cidades. Também fui à Escócia conhecer a Ecovila de Findhorn – modelo de sociedade sustentável no Reino Unido. Foi justamente quando eu estava na Itália, em 2015, que tive a ideia de criar a Amo a História de Salvador, que é esse projeto que você conhece. Mas muito antes disso, desde que eu cursava Arquitetura, já juntava imagens e fotos antigas de Salvador por paixão minha. Hoje, juntando Instagram e Facebook, tenho 126 mil seguidores. E o crescimento é orgânico. Não pago o Facebook, nem o Instagram para conseguir impulsionamento. Isso torna tudo ainda mais forte e verdadeiro. 

Como sua formação em Publicidade e a paixão pela Arquitetura se relacionam à página?
A relação é absoluta. Eu uso meus conhecimentos de publicidade para fazer a página ficar interessante, eu sou redator publicitário. Então além da foto, além da pesquisa que eu faço de História, eu sei escrever bem, trabalho escrevendo, então eu consigo, com textos relativamente curtos, gerar interesse nas pessoas, consigo que as pessoas entendam o raciocínio que eu to fazendo, conheço a história de uma forma diferente. 

Uso meu conhecimento também de trabalhar imagem, de trabalhar marca, roteirizar os vídeos, minha página tem um trabalho visual bem interessante. Então é uma vantagem para mim ter o conhecimento de Publicidade e Propaganda aliado ao conhecimento de Arquitetura, de Urbanismo e meio ambiente. Minha pesquisa de História que é espontânea. Não sou historiador, mas conheci a história da cidade quando fiz Arquitetura e Urbanismo. Agora eu estou sozinho, pego os livros e vou em frente.

Qual eram sua expectativas e intenções ao criar a página? Elas se cumpriram, se excederam?
Sinceramente, eu não tinha expectativas. Não criei como negócio, nem com um objetivo específico. Mas eu acredito muito em energia e em propósito de vida. Como o amor pelas cidades e estudo das cidades me move de uma forma muito forte, eu acho que o sucesso da página é reflexo disso. Para eu conseguir fazer a Amo a História de Salvador como vocês conhecem, eu passei mais ou menos um ano virando a noite. Trabalhava de dia para ter meu salário, chegava em casa, tomava um banho, começava a trabalhar na página 8 da noite e ia parar 3 da manhã. Aí acordava 7 horas da manhã e ia trabalhar de novo. Essa rotina durou um ano para eu conseguir fazer a página acontecer. Mas não tinha intenção financeira ou comercial, até porque o que já gastei de tempo, de dinheiro e de recursos técnicos… A página só tem o recurso necessário para que exista e eu crio formas de isso acontecer com projetos. Hoje, eu já tenho essas intenções. Já vi a potência da página e tenho planos e ideias para ela.

Você pode falar um pouco sobre esses projetos?
São dois produtos que tem a ver com a página. Tem o curso online “Retratos da História”, que são cinco módulos de 2 horas nos quais eu ensino a história de Salvador utilizando as fotos. Foi um sucesso, formamos 5 ou 6 turmas. Mas, eu sempre digo: “Não sou historiador, eu sou um amante da história”, então é lógico que o historiador vai ter um conhecimento muito maior do que eu. Ensino o que eu conheço através do estudo e fico feliz de conseguir passar isso para as pessoas. É um amor muito grande pela cidade e elas me respondem muito positivamente. 

Tem também o outro trabalho que faço, o “Passeio na História”. Nele, eu passeio pelo Centro Histórico com um grupo de pessoas e vou contando a história do lugar. Começa 8h30 e, dependendo do grupo, vai até 12h30. Não é um passeio turístico porque não paramos para consumir a comida baiana, para comprar souvenir. Costumo dizer que é uma aula de História no meio da história né, uma aula de campo. Também foi um sucesso, as pessoas mandam mensagem, ficam apaixonadas. Parei por conta da pandemia, mas assim que eu sentir que dá para voltar para rua, eu volto. São muitos os pedidos para isso.

Onde vc encontra os acervos que posta usualmente? Já teve problema com direitos autorais ou fotográficos?
Naturalmente com o crescimento da página, eu não pude ficar usando as fotos capturadas na internet. Quando eu retornei para Salvador, fiz um investimento. Fui em vários arquivos públicos e particulares da cidade e comprei o direito de uso das fotos. Muitas pessoas se enganam achando que, porque as fotos são antigas, elas têm direito de uso e nem sempre. Existe o direito autoral e o direito fotográfico. O direito autoral de uma foto do século 19 já prescreveu, não tem mais direito autoral, mas existe o direito fotográfico. Essas fotos que você pega na internet, estão na internet porque alguém, um dia, tirou a foto dessa foto em algum livro de algum lugar do mundo. O direito fotográfico é de quem tirou a foto da foto original. E você não pode utilizar a foto que ele fez sem pagar pelo uso. Tem fotos de Salvador espalhada pelo mundo todo, afinal, Salvador foi uma cidade importantíssima no cenário internacional até o século 19. Graças a Deus, por ser publicitário, eu já estava acostumado com essas situações de uso de imagens e uso de personagens. Sabia que não era simplesmente pegar as fotos e sair postando, então todas as fotos que eu uso, pago pelos direitos de uso dela.

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Vejam a riqueza dessa foto da primeira metade do século XX. Quatro prédios históricos, o bondinho elétrico e alguns dos primeiros carros de Salvador aparecem entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile. Notem a linda fachada do Cine Teatro Guarani, o primeiro prédio à direita. Que pena que a perdemos. Ao lado, o prédio do A Tarde, construído entre 1912 e 1930, sendo o primeiro edifício em concreto armado da Bahia. Atualmente, ele foi recuperado e abriga o Hotel Fasano. Já na Rua Chile, os dois hotéis que muita gente confunde porque realmente são semelhantes. O primeiro é o Hotel Meridional, erguido em 1915, mas que não existe mais. Em seu lugar está, atualmente, o Edifício Bráulio Xavier. O segundo hotel é o Palace, construído em 1934 e reformado há poucos anos para ser o Fera Palace. Essa imagem nos remete ao tempo em que Salvador ainda era uma cidade com cerca de 300 mil habitantes e crescia em linha margeando o litoral. O núcleo original da cidade foi construído em 1549 e sua expansão seguiu, de um lado para a Carlos Gomes, Piedade, Campo Grande, Vítória e Ladeira da Barra; do outro lado seguiu expandindo para o Santo Antônio além do Carmo, Barbalho, Soledade e Lapinha. Só a partir de 1950 a expansão de intensificou em direção a outras áreas da cidade que ainda eram rurais, tomadas por grandes fazendas como a Fazenda Brotas, a Fazenda Pituba, a Fazenda Amaralina. De lá pra cá, nossa população deu um salto e chegou a quase 3 milhões de habitantes em apenas 70 anos. É um crescimento muito forte em pouco tempo e aí está a raiz de vários problemas que a cidade enfrenta como os de mobilidade e habitações precárias. Dois fatores foram essenciais para esse processo. A crise nas lavouras de açúcar e tabaco, que forçaram a migração para Salvador, e a produção em série de carros que se tornaram símbolos do progresso. Todas as cidades brasileiras passaram a crescer abrindo grandes vias, túneis e viadutos, tirando espaço dos pedestres para dar aos veículos motorizados. Perdemos a qualidade de vida que exista na cidade que, até então, era planejada e crescia na escala humana. (Texto de Louti Bahia da @amoahistoriadesalvador. Foto: AHMS

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As legendas das publicações costumam ser ricas em informações pouco conhecidas sobre os locais das fotos em questão. Como ocorre essa pesquisa?
Nas legendas tem uma mistura do meu estudo sobre as questões ambientais, sobre as questões urbanas e história da cidade que aprendi em arquitetura, então eu não conto a história só sob ótica da história. Essa semana, por exemplo, postei uma foto do que era o Elevador Lacerda antes de 1930, falei da história, mas ampliei a questão falando sobre “Cidade para as pessoas” – conceito moderno na área de arquitetura e urbanismo, criado por Jan Gehl. Estou, inclusive, escrevendo dois livros, um livro sobre a história de Salvador com essa visão diferenciada do planejamento urbano e outros sobre as minhas pesquisas sobre cidades menores, que têm a vida mais simples. Então é isso, a Amo a História de Salvador faz parte de um projeto de vida e acho que é por isso que ela tem dado bons resultados.

Quais feedbacks você recebe das pessoas? Lembra de algum que tenha sido marcante para você?
É maravilhosa a quantidade de mensagem carinhosa que recebo. Pessoas que moram no exterior, às vezes nem são brasileiros, às vezes nem são baianos. Já recebi de italianos, pessoas que há muito tempo não estão em Salvador, pessoas de São Paulo que amam a história de Salvador. Uns são bem marcantes sim. 

Tem uma senhora, avó de uma amiga, que pede todo dia para que essa minha amiga abra o Instagram para ela ler a página. Ela tem mais de 90 anos. Quando o jornal A Tarde fez uma matéria comigo, ela ficou tão feliz que pediu pra neta tirar uma foto dela segurando o jornal e mandar para mim. Até postei na página, há uns 6 meses. Isso foi muito marcante para mim. Mas recebo muito incentivo, muitas pessoas me agradecendo pelo resgate da história. Diria que 99% das mensagens que eu recebo é desse nível, mas tem aquele 1% né, aquelas pessoas que, infelizmente, vão ter em qualquer lugar, que querem usar a página para fazer politicagem, para brigar. Pessoas que refletem o Brasil de hoje, radicais. Mas, sem cerimônia nenhuma, bloqueio. A página tem que ser um lugar de aprendizado, de debate e não de brigas.

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