Escritores universitários: alunos da UFBA tentam ‘furar a bolha’ com novos livros

A Agenda conversou com três estudantes de diferentes cursos que contam o processo da escrita independente e do lançamento virtual

Por Inara Almeida*

Não é novidade que o ambiente universitário é um grande palco de artistas. Andando pelos campus, visitando os sites da universidade e olhando grupos de Whatsapp é possível ver divulgações e notas sobre alunos que são cantores, djs, atores e escritores lançando novos trabalhos. No mundo da literatura, a UFBA conta com diversos estudantes, de variados cursos, que lançaram livros durante a pandemia.

Wanderson Martins, estudante de ciências sociais, lançou o seu primeiro livro, Alucinógenas,  em julho de 2020 e afirma que o ambiente universitário foi o grande fomentador da construção de sua obra, que surgiu através de aulas da disciplina Criação Literária. O livro, que é um conjunto de diversos tipos de contos, de fantásticos a eróticos, é a representação de experiências pessoais do autor. 

“Alucinógenas fala de questões que foram muito importantes pra mim na época, como depressão, relacionamento tóxico, ansiedade e desejo. Foi motivado pela dor e pela necessidade de ter narrativas que expressassem o que eu sentia da maneira que eu sentia, caótica, urgente”, afirma.

O escritor  e a editora Folheando, depois de trabalharem no livro por bastante tempo, foram surpreendidos pela pandemia e resolveram manter o lançamento dentro das novas circunstâncias. O autor afirma ter criado muitas expectativas para o lançamento presencial, o que o fez acalmar os ânimos quanto ao lançamento virtual. “Compartilhamos com os amigos, com as páginas, com o mundo, falamos sobre ele dentro dessa grande rede virtual em que estamos, mas não foi uma grande comoção; e eu entendo. Ainda espero poder lançá-lo presencialmente”, diz.

Cães
Já o romance Cães, da escritora e estudante de psicologia da UFBA Julia Grilo, apesar de escrito em primeira pessoa, não traz a história da autora, mas sim de Cafeína, uma cadela que fez parte da vida de Julia. O livro destrincha os pilares do que nos constitui enquanto povo e sobre a distância que há entre homens e bichos, apresentando o fio de cultura que corre pelo Brasil, repassada por gerações. A obra conta com um texto da ilustre Laerte Coutinho na orelha, inspiração e amiga pessoal da autora.

Na página do instagram dedicada a Cães há um post de nome “Por que a Amazon vende tão rápido e eu, escritora independente, não?”, em que Júlia desenvolve sobre como os dois processos funcionam e expõe as dificuldades. A autora diz que o seu principal desafio é o fato de toda produção e distribuição do livro serem por sua conta. 

Além disso, todo o processo de pré-lançamento, de divulgação e marketing, foi desenvolvido por Júlia através de suas redes sociais, que usou de memes e muitas menções do seu livro para despertar o interesse em seus seguidores. O resultado? A escritora vendeu 300 exemplares da obra em algumas horas, meta que ela havia estipulado para meses.  “Acabei aprendendo que o marketing é uma  corruptela da literatura: ambos os campos giram ao redor de uma narrativa. Tentei criar a  história da história de Cães e difundi-la. Os memes também me ajudaram muito!”, afirma.

Esse mês de maio, a escritora vai lançar a versão e-book da obra, para que possa chegar mais longe, além da sua “bolha”, como a própria intitulou. Júlia espera que, facilitando o processo de compra e tornando o livro mais barato, ele consiga alcançar mais pessoas.

 

Rapsódias de Verão
O estudante de arquitetura Davi Damasio lançou Rapsódias de Verão, o seu segundo livro, em outubro de 2020, onde  traz todo o seu cotidiano através de poesias, com uma visão madura sobre o que é a vida adulta. Davi, que tem dificuldades em se intitular escritor, afirma ter sido muito criterioso e fez questão de publicar um trabalho perfeccionista- até mesmo contratou uma ilustradora para ilustrar algumas poesias. O autor diz ter ficado receoso quanto às vendas, mas conta que conseguiu atingir um público legal de conhecidos.

 O autor reitera sobre a dificuldade no mercado literário, principalmente para as poesias, já que as grandes editoras não têm interesse em abrir espaço para os pequenos escritores . O autor de Rapsódias de Verão diz que o seu principal desafio ao longo do processo, além do monetário, foi achar uma editora que o aceitasse. “Ou você é “adotado” por uma editora e ganha uma porcentagem em cima das vendas ou você tem que pagar por todo o processo de construção do livro, que foi o que eu fiz”, conta.

Apesar de Rapsódias de Verão ser o seu segundo livro de poesias  publicado, Davi afirma não ter grandes pretensões como poeta. O autor, que escreve poesia desde os quinze anos, conta que o seu processo de escrita é muito natural e costuma anotar as suas ideias em qualquer papel que esteja disponível- pode ser um caderninho ou uma nota fiscal achada no bolso. Ele conta que a escrita funciona como terapia antes de qualquer outra coisa e que, se alcançar apenas uma pessoa, então, já está satisfeito.

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