Festa no Politeama: Música de Quinta movimenta tradicional bairro da Soterópolis

 

Por João Bertonie

  Era possível sentir o cheiro de acarajé e cerveja. A calçada, com gente sentada e em pé esperando a festa começar, era mal iluminada e pequena. Não estamos no Rio Vermelho, é claro, mas num bairro muito menos badalado; o decadente, mas alegre, Politeama. Que, logo mais, iria esquentar com a música tocada e cantada por um grupo de atores local; era o Música de Quinta, d’A Outra Companhia de Teatro.

O nome deste bairro vizinho ao Campo Grande remete à época dos grandes teatros, das óperas grandiosas e aristocráticas. Aqui erguia-se o Theatro Polytheama Bahiano, cujas portas fecharam ainda na Era Vargas para dar lugar ao tradicional, e igualmente morto, Instituto Feminino da Bahia. Hoje, diferente da aparente glória daqueles tempos, o Politeama é um conjunto de prédios já esquecidos por Salvador.

Mas voltemos ao acarajé, à cerveja e à calçada. Em frente ao Edifício Politeama, um ator de blazer, bermuda e tênis – o uniforme da trupe de sete – pede licença aos moradores do prédio, a “Milton, o sapateiro” e a todos os politeamenses. Não demora a começar uma sessão de pouco mais de duas horas de Alceu Valença, Caetano Veloso e Valesca Popozuda, que contagiava, divertia e até emocionava as velhinhas que por ali passavam e os jovens lá sentados, bebendo do licor oferecido por um dos atores.

Com os atores d’A Outra, há de tudo. Do deboche com Harmonia do Samba à dramaticidade com Phill Veras; os artistas do Música de Quinta, checando as letras das canções com smartphones em punho, movimentam o bairro de forma vibrante e viva. Quem decide ficar por ali – e são muitos os que o fazem – se sente entre amigos.

Fernanda Júlia, 35, então, parece em casa. A atriz mora na Avenida Vasco da Gama e percorre os quase seis quilômetros que separam os dois lugares para escutar os afetos, as alegrias e as dores dos companheiros de profissão: “Eu acompanho o trabalho d’A Outra e toda vez que eu venho aqui é uma festa”.

Fernanda lembra da importância desses eventos, de sua capacidade de “reunir as pessoas” e trazer alegria a um bairro tão parado. Nilson, o dono da banca de acarajé, concorda e se alegra com o aumento do movimento trazido pelo Música de Quinta. “Eles tão movimentando isso aqui”, fala, em sua forma esquiva e rápida, enquanto vende um dos seus bolinhos de feijão.

Movimentar o Politeama e demonstrar amor a este bairro são pedras fundamentais para o Movimento Poli-te-ama, campanha realizada pelos meninos d’A Outra. “Aqui tem cultura, tem arte, a gente ama as pessoas e ama suas ideias”, diz Luiz Antônio Jr., ator do grupo e autor de boa parte dos textos lidos por eles com voracidade entre as canções. Ele já está suado e descamisado, a festa já terminada, recebendo cumprimentos das pessoas entre goles de água, mas ainda está disposto a falar sobre as razões de ser do Música de Quinta: “A gente tá aqui pra aglutinar todo mundo”.

O projeto existe desde a segunda quinzena de maio e leva alegria aquela calçada, claro, toda quinta-feira, às 19h, quando, ao menos por uma noite, o Politeama é o bairro mais bonito de toda a cidade.

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