Sonata de Outuno traz obra de Bergman ao palco

Por Natácia Guimarães

“Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco?”

Esse recorte do poema Sete Faces de Carlos Drummond de Andrade descreve um indivíduo em dúvida, confuso. O poema relembra a peça Sonata de Outono, em cartaz no Teatro Martin Gonçalves, de sexta a domingo, baseado no filme homônimo de Ingmar Bergman. Tanto o filme, quanto o poema, ambos datados em um período pós-guerra exibem sentimentos existencialistas, emoções explícitas, escancaradas que relatam dramas reais com sentimentos universais, que tanto podem ser sentidos por um eu- lírico de Drummond, no Brasil, ou por um personagem de Bergman, na Suécia.

O Teatro estava quase lotado e o clima, despretensioso antes de começar a apresentação se transformou em drama, conflito, dúvidas existenciais da metade para o final da adaptação teatral.  A historia gira em torno do drama familiar de Eva, (Cristina Leifer),  que convida a mãe, (Thaia Perez),  para passar um tempo na casa em que mora com o marido, o pastor Victor,interpretado por Plínio Soares . O titulo é presente, e quase um personagem. A peça segue o ritmo de uma sonata: grandes contrastes provocados por significativas variações de tons e temas, dando um aspecto dramático à peça

O espetáculo faz parte do projeto da atriz Cristina Leifer intitulado Bergman no Teatro- com os direitos sobre a obra do cineasta concebidos pela Ingmar Bergman Foundation–  que teve inicialmente a estrutura de oficinas e mostras de filme do cineasta com o objetivo de mostrar a quem não conhecia a obra do cineasta. A primeira adaptação teatral – Sonata de Outono-  é dirigida pelo direitor paulista Amir Labaki e foi ensaiada em tempo recorde na capital paulista, um mês e meio.

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Fotos: Natácia Guimarães

Luzes, cores,  móveis, sons,  imagens em vídeo e referências a outros filmes de Bergman.  Cada um desses elementos ajudam a desenvolver o clima da peça que conta a história, narrada por bergmar inicialmente em formato cinematográfico, de conflito entre mãe e filha, Charlotte e Eva respectivamente. Sonata de Outono abusa das sensações do espectador e o surpreende a cada descuido. Cada jogo de luz, posição tomada pelos atores, e o próprio diálogo adaptado transpõe para o palco uma versão latina de uma história universal. O processo criativo contou com a união entre diretor e atores “Foi apaixonante e emocionante como o direitor foi respeitoso ao cortar partes do textos que eram muito orgânicos para o personagem.” Disse a atriz Thaia Perez em um debate posterior ao espetáculo.

A personagem de Eva é uma mulher cheia de questionamentos e conflitos e que sofreu um aborto que a deixou ainda mais confusa com a sua existência e da mãe, Charlotte, que é julgada por Eva como uma mãe ausente que nunca lhe deu amor. Entre elas existem- vivos- os personagens do marido de Eva e sua irmã que possui paralisia cerebral.  Assim, a peça gira em torno de questões existenciais com sentimentos universais.  O existencialismo e a dualidade no caráter humano tão explorados por Bergman- que viveu durante um período histórico em que isso era evidente na sociedade –  são passados de forma chocante, confrontadora e, ao mesmo tempo, poética.

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O espetáculo faz o espectador refletir, mesmo que inconsciente, sobre a sua existência. Dessa forma dificilmente existirá vilão ou bandido. O que o autor incita é mais forte do que isso- o bem e o mal está em todo ser humano. Todo indivíduo possui traumas, medos, desejos que são resquícios de atos reprimidos e de sentimentos mal esclarecidos. “ Eu vejo que tudo que acontece no espetáculo pode acontecer comigo. Aquela Eva é real, universal. Eva é Eva em qualquer lugar. Seja no subúrbio de Salvador ou em um bairro nobre. A violência interna, psicológica está em qualquer lugar do mundo.” Disse a atriz Cristina Leiffer sobre a relação da personagem com os temas abordados na peça.

Os personagens do marido Victor e da irmã Helena são representados e “adaptados” de forma admirável. Victor, pastor, ama Eva, mas não consegue expressar seus sentimentos demonstrando a incomunicabilidade que pode haver entre duas pessoas. Helena, por sua vez, possui problemas físicos e não consegue falar nem se mover e é sempre interpretada através das falas de Eva. “Talvez Helena seja a corporificação da tragédia”. Sugeriu a atriz Thaia Perez. Personagens que podem ser vistos em qualquer família brasileira ou soteropolitana.

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Bergman era Sueco. Criado com uma educação rígida e moralista. “ Toda Educação que eu e meus irmãos recebemos baseava-se praticamente em conceitos relacionados a pecado, confissão, castigo, perdão, indulgências, conceitos comuns nas relações entre pais e filhos, e que incluíam a idéia de Deus” fala do cineasta em sua primeira autobiografia, a Lanterna Mágica. Em seus filmes ele explorou temas polêmicos referentes a relação entre os seres humanos: as máscaras sociais e os dilemas existências.

O projeto Bergman no teatro continua com a peça sonata de outono, em Salvador, até o dia 1 de junho.  A adaptação teatral é feita pela primeira vez no eixo Norte- Nordeste e pela segunda vez no Brasil.

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