Viajantes da UFBA: Estudantes contam como driblam cansaço nos longos trajetos até a universidade

Eles contam as maneiras com que utilizam o tempo no transporte público 

Por Madson Souza

Toca o despertador, toma banho, uma boa xícara de café, olha o horário do ônibus e parte rumo a mais um dia na UFBA. Uma rotina comum para a maior parte da comunidade acadêmica. O diferencial é o tempo gasto nesse percurso, que para alguns chega a passar de duas horas. No fim do dia, são mais de quatro horas se deslocando pela cidade. 

Os estudantes tentam das mais diversas maneiras aliviar a cansativa jornada, desde playlists para viagem, podcasts, ler, por o sono em dia, e até transformar os textos da faculdade em áudio e ouvir durante o caminho. 

Outro elemento comum aos viajantes é o esgotamento devido a rotina e o sentimento de insegurança no transporte público. “De quatro a cinco horas por dia (no trajeto de ida e volta de casa para a faculdade)”, conta a aluna de design, Amanda Braga, 20, que mora no município de Simões Filho. A designer fala que costuma dormir durante o percurso. 

Aproveitar a viagem para tirar uma soneca é hábito comum entre os graduandos, como Cleberson Araújo, 20, que cursa Letras Vernáculas, vive em Periperi e também mantém o costume. “Tem dias que durmo, porque tô muito cansado. Tem dias que vou lendo. Ou leio, ou durmo”, afirma. 

Desmotivadas
Porém, essas sonecas não são o bastante para evitar o esgotamento da rotina, de acordo com Amanda Braga, que passa quase um sexto do dia no processo de locomoção. “Sinto um esgotamento porque preciso pegar mais de um transporte. Costumo pegar dois ônibus, um metrô, e ainda andar. Isso me faz ficar desmotivada. O fator transporte me faz pensar muito se vale a pena vir ou não. Por isso, perco algumas aulas, porque é muito cansativo. Se não tiver o dia cheio de aulas, só uma ou duas, às vezes não venho”, explica. 

Lavínia Capinam 21, estudante de Serviço Social, moradora do bairro Paripe, também comenta sobre a falta de motivação e de como esses longos trajetos interferem em sua saúde. “Essas viagens interferem diretamente na minha saúde física, mental. Pareço uma maluca dentro do ônibus achando que vou ser assaltada o tempo todo. Minha coluna também não aguenta mais”, relata. 

“Se chegasse mais rápido podia parar pra estudar alguma coisa, fazer alguma atividade, coisa que às vezes eu tenho que fazer no ônibus mesmo”. 

Cleberson Araújo, que antes gastava quase quatro horas diárias e agora, reduziu o tempo de movimentações pela metade, devido às caronas do pai, diz que já está acostumado com a dinâmica e se organiza contando com esse fator. “Me sinto cansado, mas já estou acostumado. Acabo me programando para fazer as coisas no meu tempo”. 

Hábitos e costumes
As coisas mais curiosas acontecem dentro dos ônibus. O espaço é coletivo, mas todos estão em suas próprias viagens e tentam tornar esse período produtivo, ou não, de alguma forma. 

Weldon Peixoto, que passa entre três horas e meia e quatro horas por dia no transporte público, criou o curioso hábito de ouvir os textos da faculdade. “Coloco audiobook no meu celular, porque é melhor para poder para estudar. O balanço do ônibus não favorece a leitura em pdf ou no livro”, explana.

 Há um bom tempo existe o murmurinho sobre o “ano dos podcasts” e parece que ele finalmente chegou, pelo menos para o jornalismo. Marcelo Azevedo, aproveita suas quase três horas por dia no ônibus ouvindo podcasts, em maioria jornalísticos. 

“Escuto diariamente: o Estadão Notícias, o Durma com Essa, o Café da manhã, o Assunto, o do Globo (Ao Ponto), dois panoramas CBN, provavelmente esqueci de algum. Tem os outros também, que têm 40 minutos, depois de ouvir todos os diários escuto esses aí  “Mamilos” e “Braincast”, Marcelo lista os programas.  

E ainda tem aqueles que assistem séries enquanto se movem pela cidade. Como, Paulo Henrique, 19, estudante de Letras vernáculas, que mora no município de Candeias, e passa duas horas por dia no ônibus da prefeitura destinado a buscar e levar os estudantes para a UFBA. “Aproveito o tempo para ler alguma coisa da faculdade, ver uma série ou ouvir música”, declara. 

Segurança?
A insegurança no transporte público é um tema que tem unanimidade entre os entrevistados para esse texto. Os longos trajetos não aumentam a confiança das pessoas, que ficam na dicotomia entre se manter atentas ou usar o período para descansar. 

Lavínia Capinam atesta sobre o medo no trajeto. “Já sofri tentativa de assalto umas quatro vezes dentro do ônibus. Se tem uma coisa que não me sinto é segura”. 

Cleberson Araujo, concorda e reitera: “Não me sinto seguro no transporte público. Até porque já fui assaltado várias vezes dentro dele”. 

Isso é uma realidade comum dentro da cidade de Salvador e faz com que se criem estratégias para driblar problemas referentes à segurança pública. Weldon Peixoto, 26, graduando de jornalismo, que mora no bairro Vilas do Atlântico, em Lauro de Freitas, elucida sua tática. “Sento lá no fundo, porque dá pra ver o movimento de quem chega. Dá pra se prevenir com o celular, tento manter escondido. Fico de olho pra ver se vai acontecer alguma coisa”. 

Fatores que costumam deixar os estudantes mais tranquilos é a quantidade de pessoas compartilhando o transporte, quantidades altas são positivas. E o costume de pegar a mesma rota, caso nunca tenha sofrido nenhuma intempérie nela. 

Marcelo Azevedo, 19, graduando de jornalismo, morador do Luís Anselmo, comenta sobre a questão. “Não, não me sinto nem um pouco seguro. Todas as vezes que pego tem muita gente. Aí consigo ficar tranquilo com meu fone, mas numa rota diferente eu evito usar”.

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