Saúde mental na universidade: “as pessoas precisam perguntar: ‘onde está o eu?’”

Para a especialista, cultivar boas relações sociais, dentro e fora da universidade, é essencial para manter a estabilidade emocional

Por Ícaro Lima

Para muitas pessoas, discutir cuidados de saúde significa estar atento ao condicionamento físico. Porém, um ponto muitas vezes deixado de lado é o cuidado com outra parte do corpo que é, talvez, a mais importante: a mente. 

E é esse o assunto que ressurge mundialmente esta semana, quando neste 10 de outubro é celebrado o Dia Mundial da Saúde Mental, data criada em 1992 pela Federação Mundial de Saúde Mental (World Federation for Mental Health) com o objetivo de chamar atenção sobre como situações relacionadas a transtornos mentais afetam pessoas em todo o planeta.

O que comprova isso são dados da Organização Pan Americana de Saúde (OPAS), órgão ligado a OMS (Organização Mundial de Saúde), que apontam que há hoje, no mundo, cerca de 300 milhões de pessoas com depressão, 60 milhões com transtorno afetivo bipolar, 23 milhões com esquizofrenia e 50 milhões com demência. 

E dentro desse cenário, já preocupante, uma análise mais específica também chama atenção: a ocorrência desses casos nas universidades. No Brasil, a porcentagem de estudantes universitários que relataram algum tipo de sofrimento psíquico chega a 30%, segundo uma pesquisa realizada psicóloga brasileira Karen Graner, publicada em 2017. 

E para compreendermos melhor a importância dessa discussão,  a Agenda Arte e Cultura conversou a psicóloga e professora do Instituto de Psicologia da UFBA Raquel Malheiros para entender como essa situação aflige o dia a dia desses alunos e quais os caminhos possíveis para resolvê-lo.

Raquel é umas das integrantes do grupo de atendimento do PSIU, projeto vinculado à UFBA que oferece atendimento psicológico de forma gratuita aos aos alunos, professores e servidores que compõem a universidade, nos contou que o interesse por temas relacionados à saúde mental universitária surgiram nos tempos de estudante de mestrado: “Essas questões todas foram me trazendo certa angústia: o que eu podia fazer?”. 

 Quais as reclamações mais comuns que você escuta dos universitários durante as consultas? E elas vêm sempre de situações de dentro da faculdade?
Você fez uma pergunta super interessante porque é uma pergunta que eu fui desconstruindo no meu percurso com o PSIU. Quando entrei, fazia uma hipótese de que a angústia que circulava tinha a ver especificamente com a vida universitária, e a minha grande surpresa é que não é exclusivamente isso. Não é, majoritariamente, a questão que emerge no PSIU, embora cada plantão seja muito único. Mas a minha prática e a dos alunos que eu venho escutando, não é a questão mais recorrente.

Embora haja experiências pontuais de estudantes que viveram situações de conflitos com professores, de ambas as vias, tanto de assédio do professor com o aluno, como do aluno com o professor, experiências de inibição da produção acadêmica, seja na produção da escrita ou da apresentação. Então essas coisas emergem com muita intensidade.

O que eu percebo é uma reatualização de conflitos que esses jovens viveram ao longo da vida, ou ainda vivem e, ao entrar no ambiente universitário, que é um ambiente que convoca uma série de coisas, de uma certa forma, se lançar na vida adulta, vai trazer angústias diferentes. 

Você percebe algum perfil social mais vulnerável entre os casos que costuma tratar?
A gente sabe hoje que a população negra, por exemplo, é uma população altamente vulnerável a desenvolver algum tipo de sofrimento psíquico em função das violências, das rupturas que sofrem. A própria comunidade LGBT, não porque isso é intrinsecamente deles, mas pela própria experiência também, muitas vezes de abandono parental, de rupturas socioafetivas, da impossibilidade muitas vezes de viver a sexualidade e a expressão afetiva de forma livre, traz muito sofrimento. 

E aí a gente vai tendo outras variações, por exemplo, homens, na idade de 18 a 25 anos são mais suscetíveis a apresentar esquizofrenia. Homens também são mais suscetíveis ao uso de substâncias psicoativas. Mulheres, historicamente, porque há muitos recortes nesses estudos, são mais vulneráveis a desenvolver depressão. E os transtornos de ansiedade atingem de modo geral ambas populações. A gente tem algumas estatísticas, mas a gente sabe que, embora esses fatores de risco, a questão da saúde mental é bastante “democrática” no seu sofrimento. 

É possível fazer um paralelo entre a pressão social por uma entrada mais cedo dos jovens na universidade, e o aumento dos casos de ansiedade? E quais outros fatores que influenciam isso?
Eu acho que isso que você aponta, sobre as pressões sociais, econômicas, de ingressar no mercado de trabalho, ela é real. Ela acontece e eu acho que não só a pressão de entrar cada vez mais jovem mas a pressão também de que você não pode atrasar o curso, ou seja, de que você precisa se formar. A possibilidade de você perder um semestre, atrasar mais um ano, isso é vivido com muito sofrimento, embora haja diferenças, porque muitos, inconscientemente, retardam essa saída por ene motivos. 

Eu acho que é uma das questões, mas não é a única. [Há também] a preocupação por excelência, com o sucesso, muitas vezes as interrogações sobre as próprias motivações, o que levou de fato a ir buscar a universidade, se estão no curso que desejam ou foi a oportunidade que surge, ou, às vezes, há uma exigência, uma expectativa familiar. Então uma série de questões podem ser elementos ansiogênicos. 

O próprio uso de Ritalina entre os estudantes é uma das coisas que apontam também para um certo sofrimento, que vai em um outro sentido, que é o da auto medicação, fazendo a hipótese de que a Ritalina poderia proporcionar um impulso na produção, de não dormir tanto, estudar mais, ficar mais atento, focado. Porque o Brasil, por exemplo, é o segundo consumidor de Ritalina no mundo, só perde para os Estados Unidos, até algum tempo atrás, não sei se ainda é, mas acredito que sim. Então isso aponta para algumas questões. 

E tocando no ponto da automedicação que você mencionou, quais os principais perigos dessa atitude?
Um dos riscos mais significativos é a intoxicação. É o fato de, por exemplo, inclusive, hoje a gente sabe que as medições, embora não seja a via mais recorrente de tentativas de suicídio, mas ter em mãos medicações com alto teor de concentração de substâncias, tem um certo risco também.

Mas para além disso, que eu acho que é muito grave, é que muitas dessas pessoas que se automedicam estão sofrendo, mas não estão obtendo ajuda adequada. Porque se elas tentam ou compram uma medicação de forma irregular, elas não está recebendo uma assistência, por exemplo, de dose, de concentração, de tipo de substância. Muitas vezes não estão na terapia ou fazendo algum tipo de terapêutica integrada que possa ajudar também. Então usam a medicação exclusivamente como recurso e ainda usa de forma irregular. 

Seja no PSIU ou em outras clínicas que você atende, há também casos de professores que buscam ajuda em relação aos transtornos mentais dentro da universidade?

Professores são uma população bastante vulnerável para os transtornos mentais. No Psiu, a gente teve participações muito pontuais. Recentemente a gente tem percebido um público de pós-graduação, de estudantes do mestrado, doutorado, que, eventualmente são professores de outras instituições, mas professores da universidade propriamente, não. Não é um público recorrente no PSIU. Acho que um dos motivos inclusive é um certo receio de circular no mesmo espaço de sofrimento que os estudantes circulam, e que muitas vezes o sofrimento surge dessa relação também. 

Eu acho que desde quanto eu estou no PSIU nunca atendi nenhum professor, já no consultório é uma população que aparece muito, por uma série de sofrimentos e aí vai ter os diferentes recortes: professores do ensino público, do ensino fundamental, do ensino médio… Porque professores também se cobram. O desejo da excelência, de ser os melhores, de ter conhecimento, a sensação de estar falhando com o seu papel social. É uma profissão que faz sofrer dentro da realidade que a gente tem hoje e é uma população muito vulnerável

E olhando agora um pouco mais pro tratamento e pós-tratamento, no atendimento no PSIU, qual é a taxa de retornos positivos de alunos que melhoraram em relação aos seus transtornos? Vocês conseguem acompanhar essa evolução?

O PSIU, como ele funciona numa outra perspectiva, tem uma ideia, que não é uma regra, de que quando a gente se dispõe a atender e a escutar urgências subjetivas, ou seja, aquilo que surge como uma emergência, muitos voltam, muitos não voltam. Ou muitos voltam na medida que o ritmo da vida universitária  e que a vida psíquica permite, então as vezes volta hoje, não volta amanhã, mas volta quinze dias depois. E a gente vai estar lá de novo, continuando livre para ouvir, e ele não vai sofrer sanção porque nao veio seguidamente, e isso que eu acho muito bacana. 

Quando à devolutiva, o PSIU, como ele funciona nesse sistema, inclusive porque para fazer circular a gente precisa deixar ir também a maior parte daqueles que a gente percebe um sofrimento mais intenso, e que a gente consegue fazer gancho, de fazer esse paciente circular para outro lugar. Então a gente faz um acompanhamento, um encaminhamento desse estudante seja para o SMURB ou para outros serviços da rede de saúde. E a gente vai tentando, dentro dos nosso limites e nossas possibilidades, fazer essa tessitura de encaminhar e também fazer o sujeito se enganchar nessa necessidade porque muitos não se engajam com o próprio cuidado. 

Uma boa estatística que o PSIU divulgou recentemente numa entrevista que o Marcelo Veras que é o coordenador do projeto deu é de que desde quando o projeto existe nós não tivemos nenhuma perda de vida. Tentativas de suicídio já aconteceram pontualmente, mas de estudantes que já tentavam recorrentemente, mas em nenhum momento a gente teve uma perda real, e isso para a gente é uma grande conquista. É o sinal de que embora fazendo todas essa rupturas de modelo, sendo um serviço se disponibiliza a atender dessa forma, isso só mostra a potência que tem. 

Para finalizar, queria que você desse algumas dicas para dois possíveis grupos entre os nossos leitores: aqueles que acham que estão passando por alguma transtorno e aqueles que consideram que deve apenas conservar a sua saúde mental.

Para aqueles que estão pensando prevenção e promoção de saúde, eu acho que milhares de coisas podem e são protetoras. Cultivar relações duradouras e efetivas, e aí faz sentido também se afastar ou reavaliar as relações que trazem muita angústia e sofrimento. Também pode ser um elemento protetor cultivar a rede, dentro dos seus limites. Não se trata de quantidade de amigos ou vínculos afetivos, mas de qualidade de nossa relação.  

O que as pessoas precisam perguntar é “onde está o eu?”. O que que eu faço que me traz bem estar, me faz sentir bem, me acalma? O que, diante das angústias que eu não posso evitar, me traz algum conforto e possibilidade de enfrentamento? Às vezes isso nem está fora, está no pensamento, na forma como construo as minhas ideias, como eu lido com o meu desejo.

Quanto aqueles que já têm um diagnóstico, ou não o receberam, mas estão em sofrimento, eu acho que o passo mais importante é procurar ajuda, e de preferência ajuda qualificada, porque acho que esse é um grande diferencial da nossa profissão, que dentro da área da saúde, trabalha na área da saúde mental, psicólogos, psiquiatras… Eu digo sempre que é um profissional que idealmente a gente não pode procurar no Google aleatoriamente ou na carteira do plano, embora nem todos tenham a possibilidade de escolher, o que é uma possibilidade que o PSIU dá.

Muitas pessoas retardam muito a busca por ajuda por ene motivos, por vergonha, por culpa, por compreender que em algum momento vai passar. O que na verdade ocorre na maior parte das vezes é uma certa cronificação. O quadro vai se cronificando cada vez mais, o estudante ou o paciente vai tendo cada vez mais perdas, cognitivas, emocionais, sociais. 

Porque, por exemplo, num caso de depressão ,você vai se afastando do grupo social se isola. Então tem muito risco quando você não procura ajuda. Acho que é o ponto principal para começar. 

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