“Noivas” – Quando os silêncios dizem muito

Por Fal Santana

Um ateliê de costura, duas mulheres e os silêncios que dizem mais do que qualquer texto. Esse é o panorama do espetáculo “Noivas” da dramaturga Cleise Mendes sob direção de Liz Vernin. Ambientado num espaço que costuma realizar o sonho de muitas mulheres, a peça traz o contraponto do silenciamento feminino em relação às próprias escolhas por meio da personagem Dora.

Dora sempre cumpriu o papel que a família e sociedade esperavam dela, ser a bonequinha de cristal perfeita e sem voz ativa, servindo para garantir a felicidade dos outros, mas e a própria felicidade?! Junto a seu noivo a personagem visita o  ateliê responsável pela confecção de seu vestido de noiva e conhece Lia, dona do espaço e personagem central na jornada de reconexão com sua voz interior. Em meio a todos os processos envolvidos para decidir qual seria o vestido, a personagem percebe o quanto se perdeu para ser aquilo que os outros sempre quiseram que ela fosse.

No fim desse percurso não sabemos qual escolha Dora fará dali em diante, mas temos uma certeza, ela já não é a mesma de quando entrou naquele espaço. A pergunta que resta é, quantas mulheres vivem o mesmo que Dora?

Numa sociedade onde a figura feminina é lida como frágil e muitas pessoas perpetuam aquele velho e ultrapassado ditado de que as mulheres são o “sexo frágil”, infelizmente se torna corriqueiro encontrar diversas “Doras” por aí.

Fanny, atriz que dá vida a Dora, nos contou um pouco sobre o processo de viver a personagem e até sobre se reconhecer nela em muitos momentos da vida.

“Um dos meus maiores desafios foi aceitar que eu sou muito parecida com Dora, ainda que sejamos (também) muito diferentes… Durante o laboratório quando a diretora perguntava “O que Dora quer?”, “O que Fanny quer?” eu dizia “Não sei” e me percebia nesses ‘não lugares’ onde eu precisava acolher ela (Dora) e me acolher também”

Outra personagem de suma importância na obra é Lia, dona do ateliê de costura e responsável por conduzir Dora no processo de enfrentamento dos silêncios que lhe foram impostos por toda a vida. A atriz Carol Sebastião nos contou sobre a importância de figuras femininas como Lia que ajudam a levantar outras mulheres e lhes mostrar a própria força.

“Lia é uma personagem muito forte, dona do próprio negócio, e recebe constantemente mulheres que querem e que não querem se casar e que de alguma forma estão sendo forçadas a isso… Na peça ela age como um agente transformador, não para Dizer a Dora o que ela deve fazer mas para mostrar que ela tem opções e pode fazer o que quiser”.

Além do reconhecimento do processo de silenciamento que a maioria das mulheres passa ou já passou, a obra utiliza do personagem Augusto, noivo de Dora, para exemplificar diversas situações onde isso ocorre. Artur Carvalho, ator que interpreta Augusto, fala um pouco sobre o fato de muitas vezes essa violência e esse silenciamento virem de maneira velada. 

“Quando a gente pensa nessa violência a gente já vem com um estigma pensando na violência física ou verbal, sendo que muitas das vezes essa violência é construída de outros modos. Seja por meio do controle travestido de cuidado ou carinho… Muitas vezes essa violência se apresenta por meio de sutilezas, do tom utilizado, da voz aveludada…”

Em “Noivas” diversas cenas trazem o silêncio como subtexto para demonstrar situações e significados que não precisam do texto falado para serem captados pelo público.

“Esse texto é muito minucioso e subjetivo apesar de ser assertivo naquilo que ele está falando…  Os silêncios são muito importantes para comunicar aquilo que a gente já vive cotidianamente”.

Mesmo após 20 anos de sua criação, o texto da peça continua extremamente atual. “Noivas” é uma daquelas obras que ganham pelos detalhes e por aquilo que não é dito, mas sentido.

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