Entre ouvir, escrever e sentir: os caminhos de Lara Teixeira no jornalismo musical
Por Isabelle Medeiros
No Dia do Jornalista, a Agenda destaca profissionais que constroem pontes entre arte, público e pensamento crítico. Nesta edição, conversamos com a jornalista Lara Teixeira, repórter do “Tenho Mais Discos Que Amigos!”, que atua na cobertura de pautas de música e cultura, transitando entre entrevistas, resenhas e festivais.

Ao longo da entrevista, Lara reflete sobre trajetória, prática profissional e os desafios do jornalismo musical contemporâneo, mostrando como a escuta atenta e o olhar crítico ajudam a revelar tudo aquilo que existe para além do som.
A relação com a música veio cedo e foi decisiva na escolha profissional. Lara conta que sempre foi apaixonada por esse universo e cresceu acompanhando conteúdos culturais na TV e em revistas. “Eu sempre gostei muito de acompanhar entrevistas, coberturas e matérias envolvendo cultura de uma forma geral”, lembra. Durante a graduação, direcionou seus trabalhos para a área e buscou se aproximar dos bastidores, inclusive com experiências em produção cultural e estágio na editoria de cultura do Bahia Notícias, que define como uma verdadeira escola.
Hoje, atuando no jornalismo musical, ela enxerga a escrita como um exercício que vai além da informação básica. “A informação precisa ser o ponto de partida”, afirma, destacando que, ao falar de música, é essencial aprofundar. Em seus textos, busca trazer comparações, analisar sonoridades e observar detalhes, seja em lançamentos ou na cobertura de shows, onde elementos como performance, setlist e reação do público ajudam a construir a narrativa.
Mais do que acompanhar novidades, Lara acredita que o jornalismo musical tem um papel fundamental na mediação entre artistas e público. Para ela, o trabalho do jornalista está em ir além da superfície: “extrair aquele ‘algo a mais’” e ampliar a experiência musical por meio de contexto, referências e bastidores.
A entrevista, nesse processo, ocupa um lugar central. Para Lara, uma boa conversa começa antes mesmo do encontro com o artista. Pesquisa, escuta atenta e preparo são fundamentais, mas ela também destaca a importância de estar aberta ao inesperado: respostas podem gerar novos caminhos e aprofundar a conversa.
Ao refletir sobre a área, ela reforça que o jornalismo cultural não deve ser reduzido ao entretenimento. Pelo contrário, é um espaço potente de reflexão.
Segundo ela, o jornalismo musical dá visibilidade a questões sociais, políticas e subjetivas presentes nas obras, além de contribuir com análises críticas que seguem sendo importantes na construção das carreiras artísticas.
Esse impacto também aparece no cotidiano da profissão. Lara observa como o jornalismo pode ampliar o alcance de artistas, tanto os já consolidados quanto aqueles que ainda buscam espaço. Também chama atenção para pautas mais amplas, como diversidade e presença de mulheres na música, que ganham força a partir da cobertura jornalística.
“Isso sem falar das matérias mais elaboradas sobre a presença das mulheres no mercado da música, ou sobre a diversidade, ou a falta dela, nos palcos dos festivais. Eu acho que o jornalismo cultural causa impacto de diversas formas.”
Para acompanhar uma cena em constante transformação, ela aposta na escuta aberta e na curiosidade. Evitar ficar restrita à própria bolha é essencial: “é importante prestar atenção no que as pessoas estão escutando”. Entre estratégias pessoais, ela menciona uma playlist chamada ‘sons dos stories alheios’, onde reúne descobertas feitas a partir de sugestões e redes sociais, além da importância de ouvir recomendações e frequentar shows de artistas ainda pouco conhecidos. 
Por fim, ao olhar para quem deseja seguir na área, Lara destaca a importância de construir repertório e se manter em constante atualização. Mais do que consumir, é preciso pesquisar, entender a cena e compartilhar o próprio trabalho. “Você precisa ter o seu repertório e ir divulgando e construindo o seu nome nessa área”, afirma.
Ao destacar a escuta, a pesquisa e o compromisso com a construção de sentido, Lara Teixeira reforça o papel do jornalismo musical como um campo que não apenas informa, mas também interpreta, conecta e amplia a experiência cultural. Em um cenário de excesso de informação, seu trabalho aponta para a importância de olhar com atenção — e de contar boas histórias.
*Fotos: Arquivo pessoal


