Salvador, capital do concreto
Por Fal Santana
Salvador costuma ser lembrada, por aqueles que vêm de fora do seu território, pela alegria de seu povo, suas praias, sua hospitalidade e pela efervescência cultural que transmite. No entanto, para quem reside na cidade, o calor, tão amado por turistas do Brasil e do mundo, tem se tornado queixa frequente no dia a dia do cidadão.
Grande parte dessa sensação de calor elevado, percebida ao circular pela cidade, deve-se às chamadas “ilhas de calor”: zonas urbanas que retêm o calor e contribuem para as altas temperaturas enfrentadas pelos soteropolitanos. Essas áreas são formadas pela diminuição da vegetação natural, que ajudam a regular a temperatura, pela presença de asfalto e concreto (materiais que absorvem mais calor e o liberam por muitas horas após o pôr do sol), e pela concentração de imóveis altos na orla da cidade, que criam barreiras e dificultam o fluxo da brisa marinha para o interior.
No último ano, a atual gestão municipal vem sendo duramente criticada por conta do seu posicionamento em relação ao modelo de urbanização adotado na cidade. Cidadãos e especialistas apontam que esse processo tem ocorrido com negligência em relação às áreas verdes no planejamento urbano. Em uma coluna para o veículo é notícias, o biólogo Alexander Gomes comenta:
“Tira-se o verde para vender progresso, mas a conta é paga pela população com ilhas de calor, enchentes e um ar cada vez mais pesado”.
A prefeitura, por sua vez, alega estar atuando dentro das normas e das possibilidades. Esse cenário pode ter ajudado Salvador a ocupar a 2ª colocação entre as capitais menos arborizadas do Brasil, ficando atrás apenas de São Luís (MA) de acordo com as informações disponibilizadas pelo IBGE sobre o censo demográfico de 2022 .
Para além disso, há outro aspecto relevante a ser considerado ao analisar a diminuição das áreas verdes na capital baiana. Em comparação com outras regiões da cidade, os bairros com maior valor por metro quadrado concentram também os maiores índices de arborização. Entre eles, destacam-se o Caminho das Árvores, o Horto Florestal e o Corredor da Vitória. Em contrapartida, bairros como Pirajá, Pero Vaz e Palestina (conhecidos por abrigarem populações menos favorecidas) apresentam os menores níveis de cobertura vegetal.
Diante desse cenário, resta a pergunta: quem é mais afetado pelo processo de desmatamento associado à urbanização em Salvador e a quem interessa que esse modelo de desenvolvimento se mantenha? A cidade que recebe multidões no verão, atraídas pelas praias e pelo carnaval, castiga os seus cidadãos com um calor insuportável quando se deslocam de ônibus, no trabalho, no metrô, em suas casas. As pessoas que vivem a cidade e fazem ela funcionar, mereciam um refresco nesse calorão enquanto mantêm sua estrutura andando.

