Resistência na Tela: O Papel dos Cinemas de Rua na Formação Universitária
Conversamos com a estudante de psicologia da UFBA, Raquel Chagas, sobre a importância desses espaços na sua formação acadêmica
Por Ricardo Barreto
Em uma Salvador que pulsa entre a tradição e a modernidade, os cinemas de rua resistem como redutos culturais, oferecendo muito mais do que entretenimento: são extensões vivas do campus universitário. Para a estudante de Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Raquel Chagas, esses espaços representam um contraponto necessário à padronização dos centros comerciais, unindo o afeto pelo espaço físico à fundamentação intelectual. Frequentadora assídua do Cine Metha – Glauber Rocha e da Saladearte no Corredor da Vitória, Raquel vê na sétima arte uma ferramenta essencial para sua graduação. Segundo a estudante, a escolha por esses locais transborda o lazer: “Eu faço um curso de humanidades, o que significa que tudo é objeto de estudo para mim. Onde tem gente, tem objeto de estudo. E aí acaba que são muito os dois [lazer e estudo]”, explica.
Essa simbiose é reforçada por projetos de extensão da própria universidade, como o Cine OGT e o Crianças em Cena, que utilizam as salas de rua para pensar questões inerentes à psicologia e à sociedade. A relação de Raquel com o cinema de rua é também uma forma de habitar a capital baiana em sua totalidade, aceitando o que a cidade oferece fora das bolhas de consumo. Para ela, a localização desses cinemas no Centro Histórico ou em bairros tradicionais impacta diretamente sua percepção urbana.
“Poder estar em um cinema de rua, no qual eu tenho contato com as pessoas e todas as contradições da cidade que estão ao redor, inclusive, são fatores muito determinantes, assim, para eu frequentar e para eu preferir, inclusive, porque no shopping é um lugar asséptico, né? Ele tá com a luz branca, tudo claro”, pontua a futura psicóloga.
Além da questão geográfica e acadêmica, a escolha pelos cinemas de rua passa por um viés pragmático e ideológico. Como bolsista universitária, Raquel destaca que o fator financeiro é decisivo, mas está atrelado a uma postura política e estética.
“É tanto uma escolha política, quanto uma escolha estética e financeira eu ir para o cinema de rua, porque de fato é muito mais barato, eu sou estudante, sou bolsista, então não tenho dinheiro para ficar pagando muito caro o ingresso e porque eu me sinto melhor estando em ambientes da cidade”, afirma.

Para ela, frequentar esses espaços ajuda a viabilizar projetos sociais e a manutenção de um modelo de cultura mais inclusivo. Com o tempo, essa preferência molda a própria identidade do estudante, tornando-se o que ela define como “a estética de quem você é”, chegando ao ponto de frases como “eu não vou ao cinema de shopping” tornarem-se marcadores de personalidade.
As memórias construídas nessas salas pontuam a trajetória de Raquel desde que se mudou para Salvador em 2019. O filme Bacurau, assistido no Cinema da UFBA, permanece como um marco de sua chegada e de sua autonomia na cidade. “Para mim é muito marcante ter assistido Bacurau no cinema da Ufba, porque foi eu acho que um dos primeiros cinemas que eu fui sozinha em Salvador… a sala estava cheia, e nunca tinha ido e tal”, relembra.

Mais recentemente, obras como Hamnet e The Drama têm servido de base para suas reflexões acadêmicas sobre luto, infância e adolescência, provando que a curadoria desses espaços dialoga diretamente com as ementas universitárias. Raquel observa que os filmes vistos no circuito de rua frequentemente retornam como pauta em sala de aula: “Hamnet é um que vai me acompanhar por muito tempo ainda na minha trajetória acadêmica, porque fala muito sobre luto e em psicologia a gente acaba tratando sobre luto”.
A democratização do acesso é outro pilar fundamental dessa relação entre a UFBA e os cinemas de rua. A existência de salas próximas ou dentro do campus, como a Saladearte Cinema da UFBA, facilita o contato com produções que dificilmente chegariam ao grande público dos shoppings. Raquel acredita que as extensões universitárias e a gratuidade de algumas sessões são vitais para o corpo discente. “Eu acredito muito que uma sala próxima ou dentro da UFBA democratiza o acesso ao cinema, principalmente por conta das extensões universitárias que existem… tem cinema de graça na UFBA, como essas extensões, facilita muito com que o universitário vá lá e assista”, defende a estudante. Ela cita ainda a facilidade logística proporcionada pelo Buzufba, o transporte universitário, que permite aos alunos circular entre as aulas e o cinema de forma prática.

Essa estrutura de fomento à cultura impressiona inclusive estudantes estrangeiros, como uma colega chilena de Raquel, que se surpreende com a possibilidade de pagar mais barato por sessões de qualidade dentro da universidade. Para Raquel, ter um espaço onde se possa assistir aos filmes discutidos com amigos e professores de forma acessível é um privilégio que fortalece a formação acadêmica.
“Ter um cinema que passa os filmes que a gente conversa em sala de aula e que a gente conversa na faculdade com os nossos amigos também e é mais barato… isso facilita muito o acesso, com certeza”, conclui.
Dessa forma, os cinemas de rua de Salvador consolidam-se como espaços de resistência que transcendem a tela. Eles oferecem aos estudantes da UFBA a oportunidade de ver o mundo através de lentes que os blockbusters ignoram, ao mesmo tempo em que fortalecem o vínculo afetivo e crítico com o território urbano. Ao optar por essas salas, o universitário não apenas consome arte, mas participa ativamente da manutenção de uma cidade mais aberta, menos segregada e profundamente conectada com o pensamento humanista e a formação de sua própria identidade.

