Perfil: conheça Letycia Mendes, artista visual e estudante de Desenho e Plástica da UFBA
Infância, gênero e a estética da autoproteção são os pilares de sua obra
Por: Ricardo Barreto
Em uma cidade que pulsa entre a tradição e a modernidade, as artes visuais surgem como um campo de resistência e ressignificação do cotidiano. Para a artista visual e pintora Letycia Mendes, 21 anos, natural de Trindade, no Sertão de Pernambuco, a mudança para a capital baiana para cursar a licenciatura em
Desenho e Plástica na Universidade Federal da Bahia (UFBA) representou um marco decisivo em sua produção. Assim como outros estudantes que encontram na universidade um espaço de expansão, Letycia utiliza o ambiente acadêmico para aprofundar suas pesquisas, relacionando sua prática à história da arte e ao pensamento político.
A Carranca como Escudo Urbano
Um dos elementos centrais na sua obra é a carranca, que surgiu inicialmente em uma atividade universitária, mas logo se tornou uma “persona” em seu imaginário. Ao investigar o que configura a carranca, ou a “cara feia”, a artista estabeleceu uma conexão direta com sua vivência no meio urbano. Ela associou essa expressão ao gesto de “fechar a cara” ao caminhar sozinha pelas ruas, utilizando a estética do objeto como uma estratégia de defesa. Ao assumir a funcionalidade protetora do objeto folclórico, Letycia afirma:
“Nesse momento, ao me apropriar da função do objeto, eu me torno eu carranca”.

Esse processo resultou na série de pinturas sobre “mulheres carranca”, que funcionam como um escudo de autoproteção contra o assédio, permitindo à artista transitar e se proteger no espaço das cidades.
Reinventando a Memória através do Futebol
Além da proteção, o trabalho de Mendes é um exercício de investigação sobre a própria infância e os signos que discutem o presente. Através da pintura, ela busca (re)inventar memórias, focando especialmente no futebol de rua sob uma perspectiva feminina. Para a artista, retratar meninas em campo é uma forma de reparar uma “impossibilidade de ser” imposta no passado pelas pressões de gênero que a impediram de jogar. Inspirada por referências como Larissa de Souza, que trabalha na reconstrução de eventos desejados, Letycia utiliza sua arte para dar lugar ao que não foi permitido.
“O futebol de rua jogado por meninas entra bem nesse sentido de reconstruir uma infância que não foi permitida pelas imposições de gênero”, explica.
Atualmente, ela segue desenvolvendo pesquisas sobre a presença feminina em outras brincadeiras e a

importância das relações de afeto na formação da identidade infantil.

