Maternidade e Resistência: O Coletivo Mães da UFBA e a Luta pela Permanência na Universidade
Uma conversa sobre luta, inclusão e pertencimento
Por Ricardo Barreto
A trajetória de estudantes que conciliam a vida acadêmica com a maternidade na Universidade Federal da Bahia (UFBA) ganhou um novo capítulo de organização e voz política nos últimos anos. No centro desse movimento está o Coletivo Mães da UFBA, uma iniciativa que transforma dores individuais em luta coletiva por políticas públicas de permanência. Em entrevista, Napê Nunes, idealizadora e co-fundadora do grupo, revelou os desafios e as conquistas dessa rede de apoio que desafia a lógica de uma universidade que, muitas vezes, ainda se comporta como um espaço “child free”.
O Coletivo foi idealizado em 2018 e fundado em 2019, motivado pela experiência pessoal de Napê no curso de Pedagogia. Na época, a proibição da presença de crianças na Residência Universitária forçou a separação de seu filho, que precisou retornar para São Paulo. “Percebi que existiam ações que as próprias estudantes desenvolviam… mas não entre todas as unidades, eram isoladas… e foi daí que nasceu a ideia de fundar o
Coletivo”, explica a fundadora. Atualmente, a coordenação é formada por seis mulheres: Keli Cristina, Juliana Santos, Inaira Gomes, Jéssica Santos, Karol Santana e a própria Napê Nunes. O grupo utiliza as redes sociais, especialmente o Instagram, não apenas como vitrine, mas como uma ferramenta de acolhimento e “caça-mães” para identificar estudantes que circulam sozinhas pelos campi.
A identidade do coletivo é carregada de simbolismo. O logotipo, que remete a corpos não brancos em sintonia com a população de Salvador, inclui uma homenagem sensível: um arco-íris sobre a letra “A”. O detalhe recorda Aurora, filha da estudante Gabriela Lemos, que enfrentou a expulsão da residência universitária ainda grávida. Aurora faleceu antes de conseguir uma vaga na creche universitária. “O nosso arco-íris no ‘A’ de Aurora nos lembra sempre pelo que estamos lutando”, afirma Napê.
O Coletivo organizou suas demandas em três eixos principais entregues à reitoria:
Eixo Administrativo e Acadêmico, pautado na criação de um censo de mães, validação de atestados médicos de dependentes e flexibilização de carga horária.
O eixo de Direitos e Inclusão, buscando acesso de dependentes ao Restaurante Universitário (RU) e políticas específicas para mães quilombolas e indígenas.
E o eixo de Demandas Orçamentárias, reivindicando a instalação de fraldários, salas de amamentação e ampliação das vagas na creche universitária.
Apesar de uma parceria positiva com o projeto “Mãos Dadas” para mediar situações pontuais, Napê critica a falta de políticas institucionais concretas e a infraestrutura precária.
“A UFBA não está preparada para receber mães e pessoas que cuidam”, pontua, citando a ausência sistemática de trocadores e o fechamento recorrente da creche durante as greves. “Enquanto a instituição normaliza a ausência, a gente nomeia”, reforça.
Para o Coletivo, estar presente na universidade com os filhos é um ato de produção de ciência. Eventos como o “Território Mãe” e a organização de espaços de convivência infantil em congressos científicos provam que a inclusão é possível. A desestigmatização dessas alunas passa pelo combate à culpa materna.
“Quando uma mãe se encontra no Coletivo, ela percebe que o problema não é dela, é estrutural. A luta individual vira luta coletiva, e a luta coletiva fortalece esse propósito”, defende Napê.
O objetivo final é que a universidade deixe de ser um ambiente hostil à infância: “Precisamos normalizar que somos mães cuidadoras… a desestigmatização começa quando o estigma é nomeado e respondido com as nossas presenças”.
Fotos: Acervo coletivo Mães da UFBA

