Do sertão ao picadeiro: espetáculo “Idas e vindas secas” une teatro e circo em ensaio aberto no TCA
A equipe da Agenda de Arte e Cultura acompanhou a prévia do espetáculo dirigido por Joice Aglae, que investiga a expressividade corporal, a poética circense e a superação em cena.
Por Júlia Pacheco e Ricardo Barreto
No dia 2 de outubro, a Agenda de Arte e Cultura esteve presente no ensaio aberto e na entrevista coletiva do espetáculo “Idas e vindas secas”, que conta com direção e dramaturgia de Joice Aglae e que estreou no último dia 08 de outubro na Sala do Coro no Teatro Castro Alves (TCA).
Realizado pela Cia Buffa de Teatro e SouZ Produção e Gestão Cultural, com direção e dramaturgia de Joice Aglae e produção de Juliana Monique, a montagem realiza sessões de sexta a domingo, sempre às 20h. Selecionado por meio do edital da 21ª edição do TCA.Núcleo de Teatro, realizado pelo Teatro Castro Alves e Fundação Cultural do Estado da Bahia, a montagem segue para circulação no interior da Bahia após as apresentações pela capital.
Inspirado no romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos, “Idas e Vindas Secas” não busca adaptar literalmente a obra. O livro publicado em 1938 funciona como ponto de partida para uma investigação cênica que transforma sua atmosfera, seus silêncios e seus personagens simbólicos em uma dramaturgia física e imagética. O espetáculo transforma o sertão em picadeiro e encontra na palhaçaria uma forma de tensionar a dureza dessas questões.
A recepção à imprensa começou antes mesmo do acesso à plateia, com os próprios atores entoando uivos, cantos e badaladas de sinos para convidar o público a entrar no universo da montagem. Mesmo em fase preparatória, o ensaio revelou a força da dramaturgia física, demonstrando como a linguagem cênica é capaz de expressar sentimentos profundos e evidenciar que até a figura do palhaço pode carregar a tristeza.
O corpo em primeiro plano e a poética das acrobacias
A obra ressignifica a narrativa sertaneja ao alterar o título tradicional para uma dinâmica de partidas e retornos, abordando como é necessário se transformar para se fortalecer e sobreviver diante de um cenário hostil. Em cena, a palavra falada cede lugar à potência física: o elenco pontuou que inserir falas retiraria a força expressiva do corpo.
Durante o processo, os intérpretes realizaram um trabalho minucioso de escuta sobre como os personagens se comportariam corporalmente em determinadas situações, suprimindo expressões faciais que desviassem a atenção e codificando as mensagens por meio de movimentos cênicos e acrobacias. O processo contou ainda com a confecção do boneco por Rubenval e a orientação coreográfica para alinhar a movimentação dos artistas.
A vivência circense exigiu diferentes adaptações do elenco. A proposta da peça busca fazer o adulto se divertir como criança, resgatando a sensibilidade interior por meio de um palhaço voltado a tocar e despertar as emoções do público maduro.
Sertão, luz e paisagem sonora
A atmosfera cênica equilibra a aridez e a fantasia. Com iluminação assinada por Milena Pithon, a encenação projeta as texturas do sertão simultaneamente ao encanto do circo, unindo a naturalidade da vida sertaneja à leveza das danças circenses sob a premissa de que o espectador pode se sentir no picadeiro em determinados instantes.
A montagem conta com uma trilha sonora original contínua, concebida a partir de pesquisas ligadas ao movimento armorial (pesquisado como movimento harmonial no processo) para a escolha cuidadosa dos instrumentos e efeitos sonoros. A música preenche todo o espetáculo, suprindo a ausência de falas.
Ao final, ao compartilharem o que levam dessa montagem para suas vidas pessoais, os integrantes sintetizaram sentimentos e aprendizados como a resiliência em sonhar, o esperançar, a impermanência, o silêncio, o ato de confiar no processo e a profunda conexão com a cachorra Baleia, descrita como um verdadeiro suspiro de vida.
Foto: Lucas Malkut

