Vozes do Brasil: Sete Artistas Visuais que Estão Redefinindo a Arte Contemporânea

Por Júlia Maria

A arte visual brasileira de hoje pulsa com uma diversidade de vozes e histórias que cruzam fronteiras, tanto geográficas quanto conceituais. Sem ficar presa aos caminhos tradicionais, uma nova geração de artistas, junto com talentos que descobrem sua expressão mais tarde, usa suas obras para explorar temas importantes como ancestralidade, identidade, território e o impacto da tecnologia. A seguir, apresentamos uma seleção que inclui nomes como Daniel Jorge, Juliana dos Santos, Keila Sankofa, Mayara Ferrão, Yacunã Cuxá, Evandro Sybine e Roxinha Lisboa. Essas obras oferecem um olhar profundo sobre uma produção vibrante e socialmente engajada.

Yacunã Cuxá, nascida em 1993 em Floresta, PE, cujo nome de batismo é Sandy Eduarda de Santos Vieira, é uma artista visual indígena e ativista do Povo Tuxá de Rodelas, no sertão baiano. Seu trabalho, que inclui ilustração digital, colagem e pintura, está profundamente ligado ao ativismo, abordando temas como raça, gênero, sexualidade e política. Ela busca usar a arte para refletir a espiritualidade e a memória do seu povo. Yacunã vê na arte uma forma de manifestação e resistência das mulheres indígenas, usando sua criatividade como uma ferramenta de luta.

 

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Keila Sankofa, de origem amazonense, é uma figura importante do afrofuturismo no Brasil. Sua pesquisa mergulha nos saberes e práticas ancestrais, usando esses conhecimentos como ferramentas poderosas para imaginar futuros possíveis. Ela resgata o “corpo preto como tecnologia ancestral”, valorizando a história e as tradições negras. Em obras como a performance Óculos de Okoto, Keila celebra divindades africanas e recupera símbolos como os búzios, transformando essas ações em atos de afirmação cultural e tecnológica.

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Abusca pelo corpo e a decolonização também são temas centrais na obra de Juliana dos Santos. Seus trabalhos, que envolvem pintura e instalação, se destacam pelo uso intenso do azul, inspirado na flor Clitória Ternátea. Ela interpreta essa cor como um campo energético que transmite sentimentos como melancolia e dor. Uma de suas obras mais conhecidas, Vingança de Cam, funciona como um contraponto político à pintura A Redenção de Cam, de Modesto Brocos. Essa comparação reforça a resistência contra a ideia de embranquecimento e valoriza a luta dos movimentos negros.

 

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Outros artistas, por sua vez, exploram diferentes materiais, técnicas e o uso de novas tecnologias para fazer críticas e refletir sobre o mundo contemporâneo.

Daniel Jorge (Recreio, MG, 1991) estabelece uma conversa profunda entre o tempo geológico e a história social em suas esculturas e instalações. Seu trabalho é notável por utilizar técnicas ancestrais de cantaria e materiais brutos como pedra, barro e minério, aplicando conceitos de geometria fractal para interrogar a genealogia dos materiais e entrelacar uma crítica potente ao apartheid contemporâneo e às estruturas sociais.

 

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Em Salvador, Mayara Ferrão (BA, 1993) revoluciona ao entrelaçar pintura, escrita e inteligência artificial. Sua prática desafia as formas tradicionais de registro e indaga o olhar etnográfico, que por muito tempo deixou de lado certas histórias. Mayara usa a IA não só como instrumento, mas como alvo de análise, opinando sobre como a memória e o saber são criados e arquivados na era digital.

 

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O artista e educador Evandro Sybine (São Paulo, SP, 1974), com forte laço com a Bahia, onde estudou Artes Plásticas na UFBA, foca sua pesquisa nas poéticas visuais atuais, com destaque para as técnicas de gravura. Desde 1998, Sybine investiga as chances da gravura, explorando o papel, novos materiais e as fronteiras entre a impressão e o suporte, auxiliando de modo relevante na pesquisa e na arte-educação na Bahia.

 

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A lista é finalizada com a genuinidade da arte popular, que apresenta uma visão direta e sem rodeios sobre a vida brasileira.

Roxinha Lisboa (Maria José Lisboa da Cruz, Água Branca, AL, por volta de 1956) é um belo exemplo de artista popular que começou a criar na terceira idade, aos 64 anos, no quilombo Lagoa da Pedra. Sua pintura em acrílico sobre madeira é um retrato vívido e real do dia a dia do Sertão de Alagoas, retratando a vida no campo, a fé e as celebrações. Um detalhe singular e cativante de sua obra é a inserção de alusões à cultura de massa, como novelas, criando uma mistura original e divertida entre o mundo rural e o pop. Sua primeira individual, Roxinha: Uma vida de novela, no Museu do Pontal (RJ), em 2023, firmou sua fama no meio artístico.

 

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Os sete artistas escolhidos mostram a riqueza e a complexidade da arte visual brasileira. Suas obras não são apenas manifestações estéticas, mas também registros sociais e políticos que chamam o público a pensar sobre as várias identidades e realidades do país.

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