Tradição em risco? Como a indústria cultural afeta a trajetória da festa junina
Por Cleo Assis
O São João anima o mês de junho, que marca o Nordeste e o mundo. Surgidos no Hemisfério Norte, os festejos originalmente celebravam o solstício de verão e a fertilidade das colheitas. Com o tempo, foram incorporados pela Igreja Católica à celebração de santos. Mais adiante, chegando ao Brasil, o São João também sofreu influências marcantes de elementos da cultura indígena, como da mandioca no preparo dos alimentos.
No Nordeste, o período junino atrai turistas de todo país. Música, fogueira e bandeirolas adornam as cidades para comemorar as festividades, que movimentam a cultura e o comércio local.
Augusto Boal, ensaísta brasileiro, define “colonialismo cultural” como a manutenção da opressão de culturas mesmo após o fim do colonialismo. O termo explica bem o que acontece nas festas de junho: a cultura nordestina, que deveria ser impulsionada, perde forças quando elementos do Sudeste e Centro-Oeste se apossam dessa regionalidade. Assim, atrações do sertanejo, música eletrônica e axé substituem o arrasta-pé, o xaxado e o forró.
A popularização do que se mantém em posições de destaque nas plataformas de músicas e rádio durante o ano despertam o interesse da comunidade. Parcerias público-privadas selecionam esses artistas em busca de lucratividade e deixam de lado os cantores locais. Fato é que as prefeituras descuidam da cultura da terra, que carrega costumes, ancestralidade e história. No ano de 2023, em Campina Grande, o cantor Flávio José teve seu tempo de palco reduzido, enquanto o show de Gusttavo Lima teve maior duração. Na época, Flávio desabafou à Rádio Metrópole, dizendo que “são essas coisas que os artistas da música nordestina sofrem”.
O investimento que poderia ser voltado para a valorização de gêneros tradicionais é redirecionado para o externo, silenciando essas identidades em nome do faturamento. De acordo com o site Alô Alô Bahia, o cachê do DJ Alok totalizará R$1,5 milhão em dois shows nas cidades de Irecê e Jequié, nos dias 20 e 21 de junho deste ano. O lucro chega, mas a conta também: artistas menores são reposicionados para palcos afastados e com investimentos reduzidos.
Com isso, surge o questionamento: Para onde vai o São João?
A questão principal é, na verdade, o apagamento de cantores e bandas nordestinas, que tanto se dedicam para momentos como esse. Se ao menos os artistas de outras regiões estivessem alinhados em iniciativas que colaboram com as tradições locais, parte do problema seria resolvido. As festas estão sendo estampadas por identidades que não representam a cultura tradicional e é inadmissível que o apagamento do passado continue sendo aplaudido.

