Arte negra e memória: retratos que resistem ao esquecimento
No mês da Consciência Negra, obras de Dalton Paula mostram como a arte pode disputar narrativas históricas e resgatar memórias
Por Raniele Amorim
Enquanto o Brasil se prepara para celebrar o Dia da Consciência Negra em 20 de novembro, data que marca o assassinato de Zumbi dos Palmares, o pintor goiano Dalton Paula, nome da arte brasileira contemporânea ganha especial relevância. O pintor dedica sua carreira a tornar visíveis os rostos que a história oficial insistiu em apagar.
Nas telas de Dalton Paula, curandeiras negras, benzedeiras e líderes religiosos do período colonial ganham dignidade e presença. Com pinceladas que evocam tons terrosos e olhares serenos, o artista recria um arquivo visual que nunca existiu oficialmente. No Brasil, país de tradição escravocrata e colonizado por europeus, pessoas negras indígenas não foram retratadas em pintura e menos ainda identificadas com seus nomes. Séries como Retratos Brasileiros funcionam como um panteão reimaginado, onde a memória coletiva negra é reconstruída pincelada por pincelada. Não se trata de documentar o passado como ele foi, mas de reimaginá-lo como deveria ter sido: com protagonismo, nome e história para quem foi reduzido ao anonimato.

O Dia da Consciência Negra, feriado em diversos estados e municípios brasileiros, foi instituído para homenagear Zumbi dos Palmares e promover reflexões sobre racismo, desigualdade e a luta por direitos. Mas a data também convoca uma pergunta incômoda: que memórias estamos preservando? Que histórias estamos contando?
O sociólogo francês Maurice Halbwachs, referência nos estudos sobre memória coletiva explica: “A lembrança é, em larga medida, uma reconstrução do passado com a ajuda de dados emprestados do presente”, a memória não é uma volta ao passado, mas uma reconstrução que acontece no presente

É nesse território — entre o esquecimento e a lembrança, entre a ausência e a presença — que artistas como Dalton operam. Suas obras não apenas documentam: elas intervêm, questionam e reconstroem narrativas.
O historiador Pierre Nora cunhou o termo “lugares de memória” para descrever espaços (físicos ou simbólicos) onde grupos sociais ancoram suas lembranças coletivas. No Brasil, esses lugares estão em constante disputa. Enquanto monumentos oficiais exaltam bandeirantes e “desbravadores”, as memórias das populações negras e indígenas seguem marginalizadas.
As obras de Dalton Paula funcionam como “lugares de memória” alternativos, não impostos de cima para baixo, mas construídos a partir das vivências e fidelidades de comunidades historicamente silenciadas.
Quando Dalton pinta uma benzedeira do século XVIII está oferecendo referências visuais para que comunidades possam se reconhecer em narrativas que não foram construídas pelo olhar colonizador.
Se o Dia da Consciência Negra nos convoca a pensar sobre racismo estrutural, desigualdade e reparação histórica, as obras de Dalton Paula nos lembram que a luta pela memória é também uma luta política. Decidir quem merece ser lembrado, quem merece ter seu rosto eternizado em tinta ou película, é um ato de poder.

“Por séculos, a cultura dominante decidiu quais histórias valeriam a pena ser contadas. Hoje, artistas negros estão reescrevendo esse roteiro”, afirma a filósofa Marilena Chauí, estudiosa de cultura brasileira.
Dalton pratica o que a antropóloga Eunice Durham chamou de “movimento de criação, transmissão e reformulação” do ambiente cultural, recusando a passividade e assumindo o protagonismo de suas próprias narrativas.

