“Florbela”: Melancolia e fanatismo

 

Por João Bertonie

  “Minh’alma de sonhar-te anda perdida / Meus olhos andam cegos de te ver / Não és sequer razão de meu viver / Pois que tu és já toda a minha vida”. Os versos de Florbela Espanca (1894 – 1930), cultuada poetisa portuguesa, são intensos, dramáticos, pungentes. Eles não diferem da personalidade de sua autora; durante todos os seus anos, Florbela viveu uma vida tresloucada e inconstante, como se estivesse sempre insatisfeita, como se não pertencesse a sua época.

“Florbela”, filme de 2012 de Vicente Alves do Ó que só agora chega às nossas telas, do título aos créditos tenta refletir a alma da poetisa. A palidez de Dalila Carmo, competente atriz lusitana que dá vida à poeta, a Lisboa acinzentada, a trilha dramática, os cenários escuros (“Eu me encontro na escuridão”, afirma Espanca em certo ponto da cinebiografia) – tudo no filme inspira à profunda melancolia que permeava Florbela. A poeta da terrinha, que só durou 36 anos, é representada em seu momento mais angustiante e dramático; conhecemos Espanca quando ela está no início do seu terceiro casamento e, não conseguindo se adaptar a vida fora de Lisboa, decide voltar à capital portuguesa para visitar seu irmão, por quem nutre certa paixão reprimida.

Alves do Ó tem em suas mãos uma história poderosa de uma mulher singular na literatura ocidental. Porém, em seu segundo filme (o diretor tem em seu currículo apenas o obscuro “Quinze pontos da alma”), Alves pesa a mão. O melodrama português é exagerado e irregular, em alguns momentos chegando a beirar o mau gosto. Florbela – uma mulher feminista quando o feminismo ainda engatinhava – é retratada como uma mulher trágica qualquer, de forma pouco complexa e interessante. Seus poemas – que junto com Pessoa e Camões estão entre os mais louvados de Portugal – sequer aparecem no filme, o que soa quase como algo desrespeitoso à figura de Espanca.

Na verdade, ironicamente, durante as duas horas de “Florbela” temos pouco contato com a vida da “poetisa eleita”. Se a grandeza de sua obra é apenas citada em uma conversa entre amigas e se sua incrível história (um pai que não a reconhecia, três casamentos, dois abortos, histórico de depressão, fama notável de suas publicações, duas tentativas de suicídio antes da derradeira) é somente sugerida em alguns momentos, tudo o que temos acesso são os episódios de delírio e acessos de raiva da protagonista, que o roteiro não consegue decidir se é uma femme fatale ou uma mulher frágil.

Contudo, mesmo permeado de momentos constrangedores e desconfortáveis, o filme torna-se interessante por causa do amor quase incestuoso (e altamente correspondido) de Florbela por seu irmão e da força de sua protagonista. Dalila Carmo encarna com razoável sutileza as paixões proibidas e a loucura reprimida da famosa poeta, sendo praticamente a coluna vertebral do filme de Alves do Ó. Transitando entre a profunda melancolia e a alegria extremada com facilidade e suavidade, Dalila vive as angústias de Florbela Espanca de forma bela e sem cair no overacting, fazendo valer a pena um filme que trata com pouco cuidado da poeta que “no mundo anda perdida”.

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