Abacaxepa celebra 10 anos com show no Teatro Rival durante turnê de ‘Antes Que Você Se Esqueça’
Por Isabelle Medeiros
No último sábado, dia 12 setembro, o Teatro Rival, no Rio de Janeiro, recebeu o show da banda Abacaxepa, que está celebrando seus 10 anos de trajetória com a turnê de “Antes Que Você Se Esqueça”. O álbum, lançado em 2025, é o terceiro trabalho da banda paulista e reúne nove faixas que transitam pela MPB, pelo rock e pela música latina.
Formada em 2016, em São Paulo, Abacaxepa constrói sua identidade a partir da música, da poesia e da estética. A banda incorpora referências do tropicalismo e da cultura popular ao mesmo tempo em que aborda questões do presente e propõe outras formas de pensar liberdade, comportamento e relações.

A experiência também se estende para os palcos. Para o grupo, cada show é um momento de encontro com o público, em que a apresentação não se limita ao que foi preparado previamente. As reações de quem está na plateia, os olhares e as sensações que surgem durante a noite também fazem parte da experiência.
No Teatro Rival, essa relação esteve presente ao longo da apresentação. As músicas do novo álbum ganharam espaço junto a outros momentos da trajetória da banda, criando uma noite marcada pela troca entre palco e plateia.
Mais do que apresentar um disco, a turnê também acompanha um momento importante da história da banda. Ao completar uma década de existência, o grupo segue desenvolvendo uma pesquisa musical que passa pela cultura brasileira, pela mistura de ritmos e pela presença cênica.
‘Antes Que Você Se Esqueça’
Lançado em novembro de 2025, Antes Que Você Se Esqueça é o terceiro álbum da banda Abacaxepa. O trabalho foi produzido por Zé Nigro e reúne nove músicas que apresentam diferentes caminhos dentro da sonoridade construída pela banda.
O disco conta com a participação de Cátia de França em “Onça” e de Alessandra Leão em “Qualquer Canto”, aproximando ainda mais o trabalho de referências importantes da música brasileira.
Entre ritmos brasileiros, elementos da música latina, psicodelia e referências do tropicalismo, o álbum mantém uma característica presente na trajetória da banda: a vontade de experimentar diferentes sonoridades sem abandonar a relação com a cultura popular.
Faixa a faixa
Onça
A faixa que abre o álbum surgiu a partir de uma conversa entre Bruna, uma das vocalistas da banda, e Marco Polo, da Ave Sangria. A ideia inicial foi ganhando forma até chegar a uma composição que a banda identificou como próxima do universo de Cátia de França. “Onça” apresenta uma atmosfera de força e confronto e funciona como uma espécie de porta de entrada para o universo do disco.
Marina
“Marina” parte de uma brincadeira com os diferentes sentidos da palavra, que pode ser nome próprio, lugar ou até uma ação. A partir dessa ideia, a música cria uma personagem que desperta desejo e, ao mesmo tempo, deixa quem se aproxima dela sem direção. A narrativa acompanha esse movimento até chegar a uma compreensão sobre aquilo que foi vivido. A música começa nesse jogo de atração e abandono e vai construindo seu caminho até uma espécie de encerramento da história.
Jogo da Bicha
Com uma sonoridade marcada pelo groove, “Jogo da Bicha” nasceu de uma relação que ficou no campo da promessa. A música transforma esse flerte que nunca se concretizou em uma narrativa sobre sedução, expectativa e os jogos que podem aparecer nas relações. A faixa tem como uma de suas referências “Use Me”, de Bill Withers, além de elementos associados ao trabalho de Curumin. O resultado é uma música dançante que também fala sobre reconhecer esses jogos e decidir quando não vale mais a pena participar deles.
Daria Tudo
“Daria Tudo” parte de uma paixão que chega sem muita preocupação com limites. A música aproxima desejo, cotidiano e entrega, falando sobre aquela vontade de viver uma relação de forma intensa e sem calcular demais as consequências. A faixa também passou por uma mudança durante a produção do álbum. Inicialmente pensada como um xote, ganhou a forma de um reggaeton com elementos brasileiros a partir de uma sugestão de Zé Nigro.
Qualquer Canto
A música encontra o amor nas situações mais comuns do dia a dia. A faixa também aproxima essa experiência cotidiana de referências da cultura popular. Seu instrumental parte de uma inspiração em Lia de Itamaracá e ganhou a participação de Alessandra Leão, responsável pela percussão e pelos vocais.
Ladeira
“Ladeira” reúne elementos da música afro-brasileira e da ciranda em uma construção marcada pela percussão. A faixa trabalha com diferentes camadas rítmicas que vão crescendo ao longo da música. A letra fala sobre uma paixão que, mesmo sabendo dos riscos, continua seguindo em frente. A imagem da descida de uma ladeira funciona como metáfora para esse movimento: a razão avisa, mas o desejo continua. Musicalmente, a faixa começa de maneira mais enxuta, com voz e percussão, e vai ganhando novos elementos até chegar a uma parte mais intensa, com coros e diferentes camadas percussivas.
Uma Canción em Portunhol
Composição iniciada durante a pandemia por Rodrigo Mancusi, em parceria com Bernardo Bibancos, “Uma Canción em Portunhol” leva para o álbum uma celebração da mistura entre Brasil e outros países da América Latina. A cumbia conduz a faixa, que usa o portunhol não apenas como uma escolha linguística, mas como uma forma de falar sobre encontros entre diferentes culturas. O português e o espanhol aparecem misturados, assim como os ritmos e referências que compõem a música. O arranjo ainda incorpora o derbak, instrumento de origem árabe, ampliando a mistura sonora da faixa. A música brinca com essas aproximações e transforma a mistura em parte central de sua identidade.
Rock Rural
“Rock Rural” parte de uma experiência bastante comum para quem vive em grandes cidades: precisar atravessar longas distâncias em busca de trabalho e oportunidades. A música olha para a vida no interior e para os afetos ligados a esse lugar, como o contato com a natureza, a sensação de familiaridade e uma rotina mais próxima. Ao mesmo tempo, reconhece a necessidade de seguir em direção à cidade quando é nela que estão as oportunidades. Essa contradição entre querer ficar e precisar partir é o ponto central da faixa, que mistura referências rurais e urbanas tanto na letra quanto na sonoridade.
Rotina (Adeus, Um Tchau)
A última faixa do álbum nasceu durante um voo entre Recife e São Paulo. A viagem serviu como ponto de partida para uma música sobre despedidas, retornos e a dificuldade de se acostumar com a necessidade de partir.
Dez anos de trajetória
Ao completar 10 anos, Abacaxepa chega a uma nova etapa mantendo a mistura de linguagens que acompanha sua trajetória desde o início. Música, poesia, estética e cultura popular continuam presentes no trabalho da banda, tanto nas gravações quanto nas apresentações. A passagem pelo Teatro Rival fez parte desse momento. Em uma turnê dedicada ao novo álbum, a banda leva para o palco não apenas as músicas de Antes Que Você Se Esqueça, mas também uma proposta de encontro com o público que revisita os primeiros álbuns da banda.

