Mulheres que fizeram a Independência: o protagonismo feminino no 2 de Julho

 

Por: Raniele Amorim

As celebrações do 2 de Julho costumam destacar a vitória das tropas brasileiras sobre os portugueses e a consolidação da Independência na Bahia. No entanto, por trás de uma história frequentemente narrada a partir de lideranças militares masculinas, mulheres desempenharam papéis decisivos na resistência e na construção desse marco histórico. Entre elas, destacam-se Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa, personagens que desafiaram as convenções de seu tempo e contribuíram diretamente para a luta pela libertação da província.

Natural de Feira de Santana, Maria Quitéria tornou-se um dos maiores símbolos da participação feminina nas guerras de independência. Criada em uma família rural e sem acesso à educação formal, ela contrariou a vontade do pai e as normas sociais da época ao se disfarçar de homem para ingressar no Exército brasileiro em 1822. Sob a identidade de “soldado Medeiros”, participou de combates contra as tropas portuguesas no Recôncavo baiano, destacando-se por sua habilidade com armas e por sua atuação em campo. Embora hoje seja reconhecida como heroína nacional, sua trajetória permaneceu por muito tempo à margem da memória oficial, sendo recuperada apenas décadas depois como símbolo da participação feminina na construção do país.

Outra figura fundamental para a história da Independência da Bahia é Joana Angélica. Religiosa e abadessa do Convento da Lapa, em Salvador, ela entrou para a história ao tentar impedir a invasão do convento por soldados portugueses, em fevereiro de 1822. Ao se colocar diante das tropas para proteger o espaço religioso, foi assassinada, tornando-se mártir da causa independentista. Historiadores apontam que sua morte teve forte impacto na população baiana, funcionando como um dos episódios que intensificaram a mobilização popular contra o domínio português. Desde então, sua imagem passou a representar coragem, resistência e defesa da autonomia da província.

Moradora da Ilha de Itaparica, Maria Felipa liderou um grupo de cerca de 40 mulheres que atuaram diretamente contra as forças portuguesas. Segundo a tradição oral e registros históricos, o grupo foi responsável por incendiar embarcações portuguesas, enfraquecendo a logística militar inimiga durante os confrontos. Relatos também atribuem a Maria Felipa e suas companheiras o uso estratégico da cansanção, planta que provoca intensa irritação na pele, para enfrentar soldados portugueses. Sua atuação evidencia a participação popular e coletiva na guerra de independência, especialmente de mulheres negras, frequentemente invisibilizadas pela historiografia tradicional.

As histórias de Maria Quitéria, Joana Angélica e Maria Felipa revelam que a Independência da Bahia não foi construída apenas nos campos de batalha ou nos espaços de poder. Foi também resultado da coragem de mulheres que desafiaram estruturas sociais, religiosas e políticas para defender a liberdade. Ao recuperar essas trajetórias, o 2 de Julho reafirma não apenas a memória da independência, mas também o protagonismo feminino na construção da história brasileira.

 

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