Luz, Câmera e Axé: O Cine.SESI Transforma a Bahia na Tela Viva do Cinema e da Memória
Por Ricardo Barreto
Imagine entrar em uma sala escura onde as histórias projetadas na tela transbordam pelas ladeiras de Salvador e ecoam pelas águas do Recôncavo. Entre os dias 8 e 16 de setembro de 2026, a terceira edição do cine.sesi (Mostra SESI de Cinema Baiano) transformou a celebração do audiovisual em uma experiência democrática, pulsante e inteiramente gratuita. O festival espalhou suas projeções e encontros entre o Centro Cultural SESI Casa Branca, o Teatro SESI Rio Vermelho, o histórico Cine Theatro Cachoeirano (em Cachoeira/BA) e transmissões virtuais na Mostra SESI Online pelo YouTube.
Nascido com a vocação de descentralizar, formar e fazer girar a produção cinematográfica baiana, o festival integrou a plataforma de difusão cultural Cine ModaLab, com produção da Movida e realização do SESI Cultura. A proposta desta edição girou em torno do tema “Cinema, Memória e Legado”, promovendo uma bonita e justa homenagem aos 35 anos de trajetória do Bando de Teatro Olodum, companhia fundamental para a afirmação da cena negra no teatro, na televisão e no cinema.
A leveza que marcou a atmosfera do festival transparece na fusão de diferentes linguagens artísticas. As sessões contaram com a sonoridade dos DJs Nate Mônaco e Marley Bass, atividades lúdico-pedagógicas criadas para acolher o público infantil e uma marcante performance de Live Cinema com projeção mapeada (mapping) realizada pela VJ Flora na Praça 25 de Junho, em Cachoeira. Na dimensão educativa, o festival reafirmou seu compromisso com o futuro da produção local ao oferecer oficinas gratuitas que vão da criação de Filmes por Celular (com Rafael Ramos) ao aprendizado prático de Assistente de Figurino (com Bruna di Paolo) e Atuação para Cinema (com Merry Batista).
As trocas de ideias e reflexões sobre a memória e o mercado audiovisual ganham espaço em cinco painéis temáticos:
– Painel I – Trajetória e Legado do Bando: Reúne Cássia Valle, Naira da Hora e Jorge Washington, sob mediação de Heraldo de Deus, para revisitar a importância histórica e artística do Bando de Teatro Olodum.
– Painel II – Mesa Cineclube CBX: Traz Leonardo Motta e Mateus Lima em um debate sobre a atuação dos cineclubes e a difusão comunitária.
– Painel III – Cinema, Memória e Legado: O cineasta Sérgio Machado junta-se a Mameto Kumurici (Mãe Maria Lúcia Neves), Dayane Brito e Danilo Barata (mediação de Dayse Porto) para refletir sobre o cinema como guardião da ancestralidade.
– Painel IV – O Futuro se Forma: Caminhos da Formação Audiovisual na Bahia: Aborda os rumos do ensino cinematográfico no estado com representantes do SESI, SENAI CIMATEC e UFBA.
– Painel V – Por que e como investir no cinema?: Discute modelos de financiamento, sustentabilidade e negócios no setor, com mediação de Rubian Melo.
- Filmes em Exibição na Programação
– Buzu, o Curta (dir. Lindiwe Aguiar, 20 min): Retrata o poético cotidiano dos passageiros da linha Paripe–Barra, em Salvador, revelando encontros, afetos e a diversidade cultural soteropolitana através do olhar do cobrador Antônio.
– Marlindo Paraíso e a Kombi ao Amor (dir. Max Gaggino, 20 min): Acompanha um programa itinerante que percorre os bairros populares de Salvador a bordo de uma Kombi, capturando e celebrando histórias reais de amor.
– Maic não Quer Cruzar (dir. Henrique Filho, 20 min): Comédia divertida sobre o jovem Davi, que deseja filhotes de seu cão Maic, mas descobre com surpresa que o pet prefere a companhia de outro cachorro macho.
– Sopro (dir. Fernanda Beling, 14 min): Obra delicada integrante da Sessão Baianinha que explora a imaginação, os afetos e as descobertas da infância com sensibilidade e poesia visual.
– A Cor da Patroa (dir. Milena Anjos, 24 min): Acompanha uma menina que, após a suspensão das aulas por uma ação policial na comunidade, vai ao trabalho doméstico da mãe e se surpreende ao conhecer a patroa.
– Barbara (dir. Vilma Carla Martins, 20 min): Curta focado no universo infantil e nas relações familiares, estimulando conversas sobre acolhimento e identidade nas atividades formativas.
– Besouro (dir. João Daniel Tikhomiroff, 1h34 min): Longa-metragem épico baseado na lenda do capoeirista Besouro Mangangá, que usou a ginga, a fé e a resistência contra a opressão no Recôncavo pós-abolicionista.
– Bando, um Filme (dir. Lázaro Ramos e Thiago Gomes, 1h45 min): Documentário tributo que celebra a trajetória de mais de três décadas do Bando de Teatro Olodum e sua revolução estética e política.
– Ó Paí, Ó (dir. Monique Gardenberg, 1h36 min): Clássico baseado na peça do Bando de Teatro Olodum, retratando com muito humor, música e crítica social o cotidiano de um cortiço no Pelourinho durante o Carnaval.
– Quem é Essa Mulher (dir. Mariana Jaspe, 70 min): Documentário *road movie* no qual a jovem Mayara percorre a Bahia em busca da memória de Maria Odília Teixeira, a primeira médica negra do Brasil.
– Portão Mágico (dir. Leonardo Silva e Anderson Soares Caldas, 10 min): Animação infantil em que crianças de várias partes do Brasil encontram um portal para um mundo onde todas as suas questões ganham solução.
– Parquinho (dir. Vânia Lima, 26 min): Curta que transforma a convivência no espaço público em uma jornada de imaginação, brincadeiras e laços de amizade entre as crianças.
– Sonho de Arrocha (dir. Marcos Alexandre, 40 min): História inspiradora de Biel, garoto periférico de 12 anos que enfrenta desafios de fé e família para seguir o sonho de se tornar cantor de arrocha.
– Longe do Paraíso (dir. Orlando Senna, 1h43 min): Faroeste nordestino que reinterpreta o mito de Caim e Abel na Chapada Diamantina, colocando um pistoleiro no dilema de matar a própria irmã, líder camponesa.
– Bregueragem (dir. Daniel Arcades, 17 min): Documentário poético que mergulha na boemia de uma casa de seresta, revelando personagens românticos e a paixão pela música brega.
– 3 Obás de Xangô (dir. Sérgio Machado, 1h15 min): Documentário premiado sobre a amizade entre Jorge Amado, Dorival Caymmi e Carybé, ressaltando sua ligação com o Candomblé e a construção da baianidade.
– Dias de Tempestade (dir. Vitor Rocha, 19 min): Drama histórico centrado em Ahura, homem escravizado que se engaja nos bastidores da Revolta dos Malês de 1835 ao defender uma mulher.
– Mundinho (dir. Lucio Lima, 19 min): Conto afetivo sobre relações humanas, sentimentos e laços construídos durante o isolamento do lockdown.
– Malês (dir. Antonio Pitanga, 1h54 min): Superprodução histórica que aborda a Revolta dos Malês de 1835 em Salvador, acompanhando a luta de um casal de muçulmanos escravizados para se reencontrar.
Imagem: Instagram CineSesi

