18ª edição do IC Encontro de Artes põe o cuidado no centro da cena

Festival acontece de 26 a 29 de agosto em seis diferentes espaços de Salvador

“Quem cuida?” é a pergunta que movimenta a 18ª edição do IC Encontro de Artes, festival realizado pela Conexões Criativas em parceria com a Dimenti Produções Culturais. De 26 a 29 de agosto, em seis diferentes espaços de Salvador, o evento apresenta oito espetáculos nacionais e internacionais, dois bate-papos e a Ocupação Casa da Mãe, com quatro noites de shows. Ingressos estão disponíveis em www.icencontrodeartes.com.br.

Desde 2006, quando foi criado, o IC tem suas edições orientadas por um lema: uma questão motivada por inquietações contemporâneas que orientam a composição da curadoria da programação. Ao articular cenas e dramaturgias do cuidado, o festival propõe uma oportunidade de interligar as palavras “cultura”, “cura” e “curadoria”. Enquanto “cultura” está ligada a práticas de cultivo, hoje também nomeando processos de formação de subjetividades e de produção simbólica, a palavra “cura”, antes de nomear o restabelecimento da saúde, diz respeito a zelo, atenção, responsabilidade, dedicação: curar é, antes de tudo, cuidar. Talvez por isso, a palavra permaneça em “curadoria”.

Na programação, estão presentes obras que ativam a questão do cuidado de variadas formas. Para além da literalidade, o tema surge no tensionamento, na demanda, na oferta de relações com o público. Surgem negligências, desaparecimentos, sobrecargas naturalizadas, controle disfarçado de proteção, resistência confundida com invulnerabilidade – como na existência resiliente do cacto, iconografia apresentada na identidade visual do evento.

A 18ª edição do IC Encontro de Artes tem apoio financeiro do Estado da Bahia, através do Fundo de Cultura, Secretaria de Cultura e Secretaria da Fazenda, contemplado pelo Edital de Eventos Culturais Calendarizados. Conta com apoio do Programa Ibercena, fundo que estimula a circulação das artes cênicas no espaço cultural ibero-americano, realizado no Brasil pela Fundação Nacional de Artes (Funarte) e Ministério da Cultura (MinC).

O IC18 também tem apoio da Casa da Mãe, MidiaClip, Promo Mídia, Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas (PPGAC/UFBA) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) do Ministério da Educação, Goethe-Institut Salvador-Bahia, Cineteatro 2 de Julho, Educadora FM e TVE Bahia, unidades do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia  (IRDEB), vinculado à Secretaria de Educação da Bahia, além de apoio institucional do Espaço Cultural da Barroquinha e da Fundação Gregório de Mattos, Prefeitura de Salvador.

MOSTRA ARTÍSTICA – A abertura do 18º IC Encontro de Artes, no dia 26 de agosto (quarta-feira), às 18h30, ecoa o cuidado em voz apropriada: mães. Na área externa do Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA, aberta ao público gratuitamente, “Imunidade” é a mostra que resulta de residência artística realizada pelo festival a partir desta proposta de criação colaborativa desenvolvida continuadamente pelas artistas paranaenses Cândida Monte e Milla Jung. Mulheres-artistas-mães de Salvador fazem uma performance da voz e da presença, ativada como gesto artístico e político de criação de novos imaginários a partir do lema do IC18: “Quem cuida?”. Leitura em voz alta e escuta compartilhada para anunciar o cuidado como prática ética, política e econômica indispensável à vida, porém historicamente invisibilizada e desigualmente distribuída. A reflexão convoca à descolonização do tema e à reorganização coletiva do cuidar, transformando-o de fardo individual em um direito universal e ato de resistência.

Em seguida, às 20h, dentro do Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA, o IC18 abre espaço para respirar outros ares de uma cena do cuidado em que corpos masculinos sejam presentes. “VAPOR: ocupação infiltrável”, do Original Bomber Crew (PI), é parte de um vocabulário que surge nas biqueiras do Brasil e convoca a pensar nas pulsões de vida que se acendem nos becos urbanos e aquilombamentos das diversas “margens”. Vibra para outras percepções, presenças, paisagens, magias e tempos a ver com as entranhas e ditas periferias de nosso Pindorama. Homens nordestinos do hip-hop, associados a um padrão reconhecível de masculinidade, ocupam uma ausência. Reconfiguram as imagens da rua e do espaço urbano, deslocando-o da dureza, da disputa e da hostilidade. Performam poéticas, pintam novas possibilidades e preenchem de outras formas a existência de seus corpos, da cidade, de suas relações, território e coletividade. Uma suspensão, ainda que provisória, da lógica da competição e da violência.

Na quinta-feira, 27 de agosto, às 18h30, o Espaço Cultural da Barroquinha é cenário para “CHUQUICHINCHAY – La existencia de la androginia en los andes”, de Isaac Ensueño Erazo Araujo, da Colômbia, com colaboração artística de Animala, Oshnur e Bitxy. Quem cuida das ancestralidades, das memórias coletivas e das histórias dos povos originários? A performance conta da existência de seres andróginos do Império Inca, chamados Qariwarmis – fato desconhecido por comunidades indígenas e para a maioria das pessoas LGBTQIAPN+ de Abya Yala, nome dado ao continente americano pelo povo Kuna antes da chegada dos colonizadores europeus. Deste contexto e cosmogonia apagados da visão do mundo, a obra evoca Chuquichinchay, felino dançante, divindade da água, patrono dos povos indígenas de “dois gêneros”: um fundamento espiritual que confronta uma sociedade que fere e assassina corpos diversos. Numa cerimônia transancestral e de purificação, o ato é de reparação histórica e símbolo do cuidado com o luto, transformando o esquecimento em uma cena de honra e respeito.

Às 20h, no Teatro do Goethe-Institut Salvador, o IC18 acolhe uma pré-estreia, em coprodução com o próprio evento: o mais novo trabalho da multiartista baiana Larissa Lacerda e da Dimenti, “Guia Ilustrado para Desobedecer”. Nesse solo, ela expande ao palco e à cena ao vivo uma investigação que toma suas próprias memórias para pensar a criação como espaço de elaboração de traumas e, especialmente, de afirmação da vida. Resgate para cura e para romper com o silenciamento histórico de existências lésbicas. A peça é uma espécie de contra-arquivo que põe em cena a experiência singular de uma mulher lésbica, filha e irmã de mulheres lésbicas. Uma criança que viveu certo isolamento social devido a esta estrutura familiar que não corresponde à moral pré-estabelecida pela sociedade heteropatriarcal. Em vez de oferecer instruções para um bom funcionamento, este “Guia” apresenta um conjunto de estratégias e ferramentas para desafiar normas hegemônicas. Um passo a passo para compor um outro projeto de mundo.

No dia 28 (sexta-feira), às 18h30, “¡la Asimetría es más rica!” ocupa também o Teatro do Goethe-Institut Salvador. A performer, videoartista e terrorista poética paulistana Estela Lapponi experimenta uma ação ritualística e antropofágica para a digestão de uma ideia contracolonial. E se a assimetria é mais gostosa, é hora de comê-la e, enfim, digeri-la. Estela afirma repetidamente que “¡la Asimetría es más rica!”, de diferentes formas, deglutindo os sentidos e propondo ao público uma ideia anticapacitista. E se nem toda proteção liberta, o IC18 lembra também que o cuidado não pode ser pretexto para limitar a autonomia e reproduzir o capacitismo.

Depois, às 20h, o palco do Cineteatro 2 de Julho recebe “Minha mãe e eu, e a mãe da minha mãe”, espetáculo de Fabio Vidal e Território Sirius (BA), com a participação de Rosvanda Melo, mãe de Fabio. Uma narrativa autobiográfica que entrelaça temas universais como o envelhecimento e o cuidado familiar. Estreada em 2025, a peça marca um encontro emocionante entre as histórias de três gerações de mulheres, revelando memórias e afetos. Com teatro, contação de histórias, canto, bordado e culinária, a obra também homenageia Agostinha, avó de Vidal, falecida aos 80 anos, vítima da Doença de Alzheimer, e sua bisavó, Pureza. Assim, atravessa mais de cem anos de memórias familiares, trazendo à tona a rica trajetória de mulheres nordestinas e suas lutas, além de propor uma reflexão sobre o envelhecimento e o lugar das pessoas idosas na sociedade.

Na última data do IC18, 29 de agosto (sábado), às 18h30, Alina Marinelli, Bárbara Hang, Margarita Molfino, Mariana Montepagano e 45 pedras vêm da Argentina com o espetáculo “La gravedad del encuentro”, encenado no Espaço Cultural da Barroquinha. Nesta obra, corpos, pedras, solo, fricção, impactos e poeira se unem em práticas de associação e colaboração que permitem suspender aquilo que consideramos estável. Entre laços marcados pela erosão, sedimentos e transformação contínua, a peça propõe construir uma forma compartilhada de ser baseada no cuidado. A gravidade, essa força inerente a toda matéria que mantém os corpos unidos e em constante atração, é também uma força que nos move, nos molda e nos permite permanecer conectados. Onde há conexão, constrói-se apoio. Um espaço para se apoiar – ou do qual se libertar.

Fechando a mostra artística, às 20h, no Cineteatro 2 de Julho, o IC Encontro de Artes apresenta a artista e transpóloga paulista Renata Carvalho em “Manifesto Transpofágico”. Neste espetáculo, ela convida o público a olhar para o seu corpo travesti, incansavelmente, e apresenta a sua historicidade e construção. Com uma produção artística que coloca seu próprio corpo como objeto de investigação e debate em cena, Renata denuncia a construção social, midiática, patológica, religiosa, criminal e hipersexualizante que permeia o imaginário sobre pessoas trans e travestis. E abre espaço para a conversa e para nos confrontarmos: que sentimentos a palavra e a existência travesti mobilizam? “Hoje eu resolvi me vestir com a minha própria pele. O meu corpo travesti”. Renata se alimenta da sua “transcestralidade”. Letreiro pisca TRAVESTI. Nesta presença, o IC18 põe em questão a lacuna de cuidado que persiste diante dessa população.

OCUPAÇÃO CASA DA MÃE – O 18º IC Encontro de Artes realiza a Ocupação Casa da Mãe e faz deste espaço cultural o ponto de encontro oficial do festival. Nos quatro dias do evento, sempre a partir das 21h30, noites de festa e música tomam este lugar que tão bem cuida da cena artística de Salvador. São 20 anos de história, sob os cuidados da cantora, compositora e chef Stella Maris. Um território de convivência que abraça artistas e públicos, refúgio criativo, partilha em movimento constante. Com esta parceria, o IC18 reverencia uma Casa que leva a Mãe no nome, protegida por Iemanjá, abrigo cultural e afetuoso da cidade.

A agenda faz uma grande mescla de gêneros. No primeiro dia, a artista multilinguagem paulista Iara Rennó faz show com participação especial de Gabi Guedes. No segundo dia, tem forró com a Banda Cheiro de Couro, formada por mulheres lésbicas: Bruna Barreto (violão e voz), Clara Elisa (percussão e voz), Ju Paim “Surfistão” (baixo e voz), Pitty Ferreira (percussão, palavra, voz) e Tati Sales (sanfona e voz). A terceira data fica com o cantor e ator Pedro de Rosa Morais, que apresenta repertório de canções de Lulu Santos junto com Paulo Mutti (guitarra), Fabio Rocha (baixo) e Flavinho Drums (bateria). O encerramento será com o Samba de Pretas, com a roda de ancestralidade e da força das mulheres pretas.

BATE-PAPOS – O IC também reserva espaço para a formação coletiva e a construção de pensamentos sobre cenas e dramaturgias do cuidado. Serão dois bate-papos na Casa Arte Dá Trabalho, com entrada gratuita, sempre às 16h. No dia 28 de agosto, “Quem é você na cena do cuidado?” vai reunir artistas participantes do festival para falar sobre as cenas de cuidado criadas e praticadas em suas obras e trabalhos. Já no dia 29, em “Curadoria como cuidado”, a artista, curadora e gestora cultural argentino-brasileira Jimena García Blaya, a partir de sua experiência na gestão artística, na criação de redes e no desenho de projetos colaborativos, propõe pensar o cuidado como uma tecnologia da prática curatorial: um modo de fazer que desenha tempos, vínculos, mediações e infraestruturas capazes de sustentar processos.

IC ENCONTRO DE ARTES – 18ª edição – Quem cuida?

Informações e vendas: www.icencontrodeartes.com.br

Instagram, Facebook e YouTube: @icencontrodeartes

PROGRAMAÇÃO

= “Imunidade”: Cândida Monte e Milla Jung (PR) + Mulheres-artistas-mães de Salvador

26 de agosto, 18h30 | Área externa do Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA

Gratuito | Classificação indicativa: Livre

Arquitetura acessível, audiodescrição e tradução em Libras

= “VAPOR: ocupação infiltrável”: Original Bomber Crew (PI)

26 de agosto, 20h | Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA

R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) | Classificação indicativa: Livre

Arquitetura acessível e audiodescrição

= Ocupação Casa da Mãe: Iara Rennó (SP)

26 de agosto, 21h30 | Casa da Mãe

Vendas no local | Classificação indicativa: 18 anos

= “CHUQUICHINCHAY – La existencia de la androginia en los andes”: Isaac Ensueño Erazo Araujo (COL)

27 de agosto, 18h30 | Espaço Cultural da Barroquinha

R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) | Classificação indicativa: 16 anos

Arquitetura acessível e tradução em Libras

= “Guia Ilustrado para Desobedecer”: Larissa Lacerda / Dimenti (BA)

27 de agosto, 20h | Teatro do Goethe-Institut Salvador

R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) | Classificação indicativa: 16 anos

Arquitetura acessível e tradução em Libras

= Ocupação Casa da Mãe: Banda Cheiro de Couro (BA)

27 de agosto, 21h30 | Casa da Mãe

Vendas no local | Classificação indicativa: 18 anos

= Bate-papo “Quem é você na cena do cuidado?”: artistas da programação

28 de agosto, 16h | Casa Arte Dá Trabalho

Gratuito | Classificação indicativa: Livre

Arquitetura acessível

= ¡la Asimetría es más rica!: Estela Lapponi (SP)

28 de agosto, 18h30 | Teatro do Goethe-Institut Salvador

R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) | Classificação indicativa: 18 anos

Arquitetura acessível e audiodescrição

= “Minha mãe e eu, e a mãe da minha mãe”: Fabio Vidal / Território Sirius (BA)

28 de agosto, 20h | Cineteatro 2 de Julho

R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) | Classificação indicativa: 14 anos

Arquitetura acessível e tradução em Libras

= Ocupação Casa da Mãe: Pedro de Rosa Morais (BA)

28 de agosto, 21h30 | Casa da Mãe

Vendas no local | Classificação indicativa: 18 anos

= Bate-papo “Curadoria como cuidado”: Jimena García Blaya (ARG)

29 de agosto, 16h | Casa Arte Dá Trabalho

Gratuito | Classificação indicativa: Livre

Arquitetura acessível

= “La gravedad del encuentro”: Alina Marinelli, Bárbara Hang, Margarita Molfino, Mariana Montepagano e 45 pedras (ARG)

29 de agosto, 18h30 | Espaço Cultural da Barroquinha

R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) | Classificação indicativa: Livre

Arquitetura acessível e audiodescrição

= “Manifesto Transpofágico”: Renata Carvalho (SP)

29 de agosto, 20h | Cineteatro 2 de Julho

R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia) | Classificação indicativa: 16 anos

Arquitetura acessível e tradução em Libras

= Ocupação Casa da Mãe: Samba de Pretas (BA)

29 de agosto, 21h30 | Casa da Mãe

Vendas no local | Classificação indicativa: 18 anos

ENDEREÇOS

Casa Arte Dá Trabalho Rua Feira de Santana, 22 – Rio Vermelho

Casa da Mãe Rua Guedes Cabral, 81 – Rio Vermelho

Cineteatro 2 de Julho Rua Pedro Gama, 413E – Federação

Espaço Cultural da Barroquinha Rua do Couro, s/n – Barroquinha

Goethe-Institut Salvador-Bahia Av. Sete de Setembro, 1809 – Corredor da Vitória

Teatro Experimental da Escola de Dança da UFBA Av. Milton Santos, s/n – Ondina

Foto: Juliana Hilal

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