Rowney Scott: da popularização da Escola de Música ao intercâmbio na Chapada

*Por Virgínia Andrade

Faz quase cinco anos que a Escola de Música da UFBA não é mais a mesma. A mudança, atribuída à criação do curso de Música Popular [um dos cinco do país], é uma tentativa de popularizar um ambiente que, até então, era considerado erudito e elitista. Prestes a passar por grande reforma curricular, a graduação pretende direcionar o foco tanto para execução quanto para composição e arranjo, a fim de acolher um perfil de profissional compatível com a identidade do músico brasileiro: multifacetado, embora pouco especializado.

A despeito das dificuldades de definição e sistematização dos conteúdos a serem abordados, além da falta de professores para suprir a grade curricular definida, a criação do curso é uma resposta à necessidade de ampliar o espaço dedicado à música popular na Escola – pequeno, até aquele momento, para a importância que tem na cultura brasileira, especialmente baiana. Rowney Scott, um dos idealizadores e ex-coordenador do bacharelado, em entrevista à Agenda Arte e Cultura, declarou-se satisfeito com o andamento da graduação e animado com os novos rumos do projeto. “É uma iniciativa acertada, de qualquer maneira. Até então, nunca havia sido feito algo do tipo na Bahia. É um projeto experimental, no sentido de que muitas coisas estão sendo descobertas ainda”.

Na opinião de Rowney, a diversidade e flexibilidade da ementa do bacharelado em Música Popular, ainda em processo de adaptação, estimula a construção de conhecimento referente ao universo musical, a renovação do que já existe, além de abrir espaço para a constante interlocução entre professores e alunos. Um dos exemplos é a disciplina Composição em Música Popular, única entre os cursos superiores de música no Brasil.”É um risco, porque a área é sutil e pouco elaborada ainda”, opina. A disciplina Oficina de Estilos é outro destaque. Nela, o professor propõe de cinco a dez temas a serem trabalhados durante o semestre e cabe aos estudantes votarem o preferido. “A oficina é um lugar de pesquisa, em que o professor não precisa ser especializado no tema trabalhado. O papel dele é de orientador do estudo prático-teórico, já que todos vão pesquisar juntos”, explica.

Foto: Márcio Lima
Foto: Márcio Lima

EMUS em expansão Músico há mais de 30 anos, Scott destaca o bom momento pelo qual passa a Escola de Música, celeiro de produção musical em Salvador, e atribui o êxito, em grande parte, à gestão de Heinz Karl Schwebel, diretor da EMUS. “A Escola está abrindo o diálogo com outros departamentos, acolhendo alunos de outras graduações, que vem cursar disciplinas aqui. Pensa-se, inclusive, em criar um curso geral de Música”.

A recente parceria estabelecida entre a Universidade e o NEOJIBA, assim como a instituição do primeiro mestrado profissional de música no Brasil revelam o bom relacionamento entre o mercado e a academia, embora não haja relação formal de parceria. Questionado quanto ao suporte oferecido pela graduação aos estudantes em termos de atuação profissional, o saxofonista foi enfático: “em relação à prática, já estivemos em melhores condições. Nos primeiros semestres fizemos apresentações de encerramento no Teatro do Irdeb, mas financeiramente é difícil organizar isso”, reflete. A intenção de Rowney é retomar antigos projetos culturais e fomentar atividades fora da Escola de Música. Atualmente, há apenas dois eventos de música de câmara acontecendo.

Apesar da latente resistência de professores e estudantes na época da implantação do curso de Música Popular, devido ao preconceito em relação à expressão que além de musical é também cultural, segundo Rowney, a rejeição hoje é significativamente menor. “Temos ainda pontos de conflito – alguns graves -, mas há um grande contingente de professores que se relaciona muito bem”. Em relação aos alunos “muito menos, o crossover está cada vez maior”, defende.

Amor à primeira “visita” Frequentador assíduo do Vale do Capão, na Chapada Diamantina desde 1986, Scott conseguiu materializar toda a paixão que sente pelo lugar em dois projetos culturais de expressão: a atividade curricular em comunidade (ACC) Música no Capão e o Festival de Jazz do Capão, do qual é curador e diretor artístico, respectivamente em suas segunda e terceira edições.

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Foto: Lara Perl

A fim de estreitar o vínculo dos estudantes com a comunidade “extra-universitária”, foi criado o Música no Capão. Durante quatro dias, onze alunos de diferentes graduações, entre elas Jornalismo, ministram atividades para os estudantes de música do Capão. As ações variam de aulas conceituais a oficinas instrumentais, entre elas as de guitarra, baixo, percussão e sopro. Ao fim de cada período, ocorre uma apresentação para a comunidade. Apesar das inúmeros obstáculos do projeto citados por Scott, dentre eles a verba direcionada para manter a ACC, a vivência tem se revelado bastante proveitosa. “Para eles, é uma experiência muito legal sair das paredes da academia para tocar e interagir com outros músicos”, sublinha.

Defensor da descentralização da cultura e da política de valorização ambiental, Rowney, em parceria com os outros realizadores do Festival desenvolve campanhas ecológicas e alerta para o cuidado que se deve ter ao levar um evento dessa magnitude para um espaço como o Vale. “O Capão é um lugar muito delicado, um patrimônio natural incrível, um presépio. O festival de jazz é um evento de qualidade, que leva cultura qualificada e atrai um público que não só degrada muito pouco, como também faz a economia da região circular”.

Rowney Scott é professor adjunto da Escola de Música da Universidade Federal da Bahia, onde leciona Saxofone, Improvisação, Oficina de Estilos e Música de Câmara. Formado em instrumento pela UFBA, com mestrado em Jazz Performance pela California Institute of the Arts (EUA) e doutorado em Execução Musical (Saxofone) pela EMUS, participou da criação e é ex-coordenador do Curso de Graduação em Música Popular desta mesma Universidade. Um dos membros fundadores do grupo instrumental baiano Garagem, atuou como solista das orquestras sinfônicas da Bahia e da UFBA. Saxofonista da Orkestra Rumpilezz e da Banda Base JamnoMam, é idealizador, curador e diretor artístico do Festival de Jazz do Capão. 

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