CAPS não é brincadeira: O serviço de saúde é resultado da luta antimanicomial no país, mas ainda sofre com estigmas
Por Cleo Assis
O CAPS – Centro de Atenção Psicossocial – é uma organização governamental integrada ao SUS, que atua diretamente no atendimento psicológico de acesso gratuito à população. Num contexto de luta antimanicomial, entre os anos 70 e 2000, a Lei da Reforma Psiquiátrica implementou medidas que viabilizaram o surgimento do CAPS e o fechamento permanente de manicômios, antes usados como área de segregação da população que passava por sofrimento psíquico. Em 1986, surge a primeira unidade do CAPS, em São Paulo. Desde então, cerca de 3.000 unidades foram criadas e estão em atividade no país.
O CAPS auxilia a vida de milhões de brasileiros, que, com o apoio do programa, conseguem seguir suas vidas com qualidade. O surgimento dos centros marcam a mudança da ala psicossocial no país, que passa a humanizar seus pacientes, integrando-os na sociedade e os direcionando a tratamentos não invasivos.
Waléria Ferreira é estudante de terapia ocupacional na UFBA e atualmente estagia na ala infantil do CAPS na cidade de Salvador. Ela discorre sobre a importância do CAPS no atendimento ao público e sua lógica biopsicossocial, que visa tratar o indivíduo de maneira singular, além de considerar a relação sujeito x ambiente. Sobre o dia a dia na profissão, Waléria comenta que o atendimento é feito ou por demanda espontânea, em que o paciente procura o programa ao sentir necessidade, ou por encaminhamento, quando ele é atendido em clínica ou hospital e direcionado ao tratamento no CAPS. Waléria também acrescentou que o serviço funciona em seis modalidades, destinadas à diferentes situações:
CAPS I: Atende pessoas de todas as faixas etárias, prioritariamente as quais apresentam sofrimento psíquico intenso decorrente de problemas mentais graves e persistentes, incluindo aqueles relacionados às necessidades decorrentes do uso prejudicial de álcool e outras drogas, e outras situações clínicas que impossibilitem estabelecer laços sociais e realizar projetos de vida. (Municípios ou regiões de saúde com população acima de 15 mil hab.)
CAPS II: Atendimento prioritário às pessoas em intenso sofrimento psíquico decorrente de problemas mentais graves e persistentes, incluindo aqueles relacionados ao uso decorrente de álcool e outras drogas, e outras situações clínicas que impossibilitem estabelecer laços sociais e realizar projetos de vida. (Municípios ou regiões de saúde com população acima de 70 mil hab.)
CAPS III: Atende prioritariamente pessoas em intenso sofrimento psíquico decorrente de problemas mentais graves e persistentes, incluindo aqueles relacionados ao uso decorrente de álcool e outras drogas, e outras situações clínicas que impossibilitem estabelecer laços sociais e realizar projetos de vida.
Proporciona serviços de atenção contínua, com funcionamento 24 horas, incluindo feriados e finais de semana, ofertando retaguarda clínica e acolhimento noturno a outros serviços de saúde mental, inclusive CAPSad, possuindo até 05 (cinco) leitos para acolhimento noturno. (Municípios ou regiões de saúde com população acima de 150 mil hab.)
CAPS i: Atende crianças e adolescentes que apresentam prioritariamente intenso sofrimento psíquico decorrente de problemas mentais graves e persistentes, incluindo aqueles relacionados ao uso decorrente de álcool e outras drogas, e outras situações clínicas que impossibilitem estabelecer laços sociais e realizar projetos de vida. (Municípios ou regiões com população acima de 70 mil hab.)
CAPS ad Álcool e Drogas: Atende pessoas de todas as faixas etárias que apresentam intenso sofrimento psíquico decorrente do uso de álcool e outras drogas, e outras situações clínicas que impossibilitem estabelecer laços sociais e realizar projetos de vida. (Municípios ou regiões de saúde com população acima de 70 mil hab.)
CAPS ad III Álcool e Drogas: Atende adultos, crianças e adolescentes, considerando as normativas do Estatuto da Criança e do Adolescente, com sofrimento psíquico intenso e necessidades de cuidados clínicos contínuos. Serviço com no máximo 12 leitos de hospitalidade para observação e monitoramento, de funcionamento 24 horas, incluindo feriados e finais de semana; indicado para municípios ou regiões com população acima de 150 mil habitantes.
O CAPS acolhe os pacientes e/ou os direciona para alas de psiquiatria em hospitais da cidade, caso precisem de intervenção medicamentosa.
Porém, o programa é alvo frequente da psicofobia, nome dado ao preconceito contra transtornos e deficiências mentais. É comum ouvir falas como “o paciente mais fraco do CAPS” ou “esse fugiu do CAPS”, que ressoam na estigmatização de um sistema que busca viabilizar o cuidado da saúde mental no país.
Em maio deste ano, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná organizou a campanha “Do jeito que o CAPS gosta; isso não é meme!”, que usa da ‘brincadeira’ para promover a conscientização da população e fortalecer a Rede de Apoio Psicossocial do Brasil:
“Observando com preocupação este fenômeno das redes sociais, o Conselho Regional de Psicologia do Paraná (CRP-PR) destaca, neste mês que marca o Dia Nacional da Luta Antimanicomial (18 de maio), que o CAPS não é meme. Do que, então, o CAPS gosta? De investimentos, de equipes bem estruturadas e valorizadas, de cuidado em saúde mental… Será que podemos ressignificar este meme e conscientizar a população sobre a importância deste equipamento? São essas respostas que buscaremos ao longo das próximas semanas, junto com a categoria, na campanha “Do jeito que o CAPS gosta: isso NÃO é meme!”. Continue acompanhando as nossas redes sociais e faça parte deste movimento!” – Trecho disponível no site do CRP-PR
Em Cícero Dantas, no nordeste da Bahia, o CAPS Zé de Isaac promoveu uma campanha postada nas redes sociais. Nela, pacientes do centro aparecem segurando papéis com frases como “Ninguém fugiu do CAPS” e “CAPS é acolhimento”, demonstrando um lugar de apoio à comunidade. Segundo a unidade, a campanha pretende lembrar que o serviço é, antes de tudo, um local de escuta, cuidado e reconstrução.
Assim como a campanha, é dever coletivo buscar a conscientização em relação aos transtornos de saúde mental. O CAPS atua há mais de vinte anos oferecendo suporte gratuito à população que sofre de transtornos psíquicos, e deve ser respeitado por isso.



