Cosme e Damião: Alimento da fé e da memória
Por Cleo Assis
O mês de setembro é esperado durante todo o ano na cidade de Salvador. Os irmãos Cosme e Damião fazem parte das tradições da Umbanda, do Candomblé e também da Igreja Católica. Por isso, a data é mais um dos símbolos sincretistas da capital baiana.
Nascidos na Egéia, Cosme e Damião ficaram conhecidos pela cura dos doentes com seus saberes e orações, sem cobrar nada em troca. De acordo com a história dos santos gêmeos, em 27 de setembro do ano 303, Cosme e Damião foram torturados e decapitados ao rejeitarem o abandono de sua fé. Tempos depois, ao serem trazidos ao Brasil durante o período colonial, foram sincretizados, principalmente com os Ibejis e Erês.
O sincretismo religioso, tão presente na cultura soteropolitana e de outros municípios baianos, surge como uma estratégia das pessoas escravizadas. É um caminho para manter o culto e a religiosidade que seguiam, antes de serem sequestrados do continente africano, e obrigados a aceitar o cristianismo ao chegar na América.
Os Ibejis são irmãos gêmeos constantemente representados por crianças. Filhos de Iansã e Xangô, mas criados por Oxum. São associados à sorte, alegria e sabedoria, sendo aptos a desfazer realizações de outros Orixás sem que nenhum outro possa desfazer as suas.
Já os Erês, também associados às crianças, são guias de luz e pureza, normalmente associados ao intermédio entre as pessoas e seus orixás. Os seres esbanjam muito da sinceridade e disposição da infância. Na Umbanda, seguem a linha de Oxumarê, participando da renovação para alcançar o sucesso
No catolicismo, a comemoração é feita no dia 26, com celebrações aos santos gêmeos nas igrejas. Na Umbanda e no Candomblé o dia 27 de setembro remonta a pureza das crianças, associadas aos Ibejis e os Erês, com o tradicional Caruru dos Sete Meninos e a distribuição de doces e brinquedos nos terreiros.
Apesar da partilha de valores, a tradição também demarca a intolerância religiosa. É comum em algumas vertentes da igreja católica, que não associa os gêmeos às crianças, demonizar a distribuição de doces. Algumas igrejas evangélicas também fazem duras críticas ao tradicional caruru, e proíbem os fiéis de consumir a iguaria que costuma ser distribuída não só em terreiros e igrejas católicas, mas também por devotos dos santos católicos, dos orixás, ou de ambos, que preparam o caruru em suas residências.
A prática, é comum para homenagear Ibejis e Erês, que representam a alegria, pureza e infância. Mas também é feita para pagar promessas de fiéis católicos, candomblecistas e umbandistas atendidas pelos Ibejis ou por Cosme e Damião.
Em setembro já é tradição: a capital baiana e seus arredores preparam-se para comemorar com a refeição clássica, composta, principalmente, pelo caruru, vatapá e xinxim de galinha. Assim que o mês se inicia é possível ver os ingredientes do caruru ganhando destaque nas feiras e mercados da região, e as pessoas começando a se mobilizar para conseguir convites para comer caruru pela cidade. Outra tradição da celebração é pegar o quiabo inteiro no caruru, que transmite a tradição de preparar a tradicional comida no ano seguinte.
O caruru de Ibeji e Cosme e Damião é uma das principais tradições gastronômicas e de fé da cultura baiana. A transmissão desses saberes é um ato de resistência cultural, contra a intolerância religiosa e o apagamento histórico das raízes da nossa cultura.



