O Museu como Organismo Vivo: Érica Winter, a reeducação dos sentidos & agência social da arte na contemporaneidade
Por: Ricardo Barreto e Sócrates Miranda
Em uma conversa durante o último Dia Internacional do Museu, a pesquisadora Érica Winter compartilhou
com a Agenda de Arte e Cultura uma visão renovada sobre o papel das instituições museológicas na atualidade. Longe de serem apenas depósitos de um passado estático, os museus são trabalhados na pesquisa de Winter como dispositivos dinâmicos de formação humana, capazes de promover o que o crítico Mário Pedrosa, fonte base da linha teórica da pesquisadora, definiu como a “reeducação dos sentidos”. Para a pesquisadora, pensar o museu contemporâneo exige um otimismo que enxergue a potência do que esse espaço pode causar no visitante, questionando constantemente como o museu constrói o indivíduo e como este, por sua vez, constrói a instituição.
Um dos pilares dessa reflexão reside na teoria de Alfred Gell sobre a agência social da arte, que Winter sistematiza através da interação entre o agente (o criador), o objeto (a obra) e o destinatário (a sociedade). Nessa perspectiva, a “agência” não está contida apenas no objeto artístico, mas no processo e na relação social que se estabelece entre a criação e quem a consome. É dentro desse ciclo que se retroalimenta que o museu ganha vida, deixando de ser uma figura mística ou um “totem” intocável para se tornar um local de ocupação pública e cotidiana.
Esquema representativo de Gell
Essa mudança de paradigma introduz o conceito de “museu poroso”, uma instituição que não se isola do mundo, mas que absorve e reage sensivelmente às questões contemporâneas.
Segundo Winter, o museu deve funcionar como um espaço de permanência e não apenas de passagem, convidando o público a um diálogo contínuo onde a memória não é algo “instituído”, um fato encerrado no tempo, mas sim “instituinte” como sugere a curadora e pesquisadora Izabela Pucu.
Isso significa que, embora o fato histórico tenha acontecido, a forma como sua memória perpassa o presente é fluida e capaz de gerar novos sentidos no agora. A curadoria, nesse cenário, assume uma função social imediata ao utilizar estratégias que vão além do catálogo ou do inventário.
Winter explica que o papel do curador é organizar o espaço para produzir tensões e “estranhamentos”, muitas vezes aproximando objetos que formalmente não conversam entre si para tirar o visitante do seu eixo habitual e provocar uma construção crítica de sentidos.
Essa abordagem não-linear é o que permite ao museu atuar como um agente transformador da percepção pública. Ao abordar o debate sobre a decolonização, Winter sugere que a verdadeira atitude decolonial reside na capacidade de imaginar novas formas de instituições de arte.
Ela cita como exemplo emblemático o Acervo da Laje, em Salvador, que reformula a estrutura museológica tradicional ao ser, simultaneamente, um museu e o próprio território que representa.
Ao contemplar todas as funções essenciais de um museu, mas adaptadas à realidade de sua comunidade, iniciativas como essa demonstram que o futuro das instituições de arte passa pela porosidade e pela capacidade de se reinventar como espaços de existência e resistência social.
Fotos: Sócrates Miranda

