A Pintura como Manifestação do Ser: A Jornada Identitária e Artística de Vico nas Telas de Salvador

Por: Ricardo Barreto

Natural de Vitória da Conquista, no interior da Bahia, a artista visual Vico, hoje aos 25 anos, personifica uma trajetória de transição e amadurecimento que se funde com a própria paisagem cultural de Salvador, cidade onde reside há pouco mais de cinco anos. Sua mudança para a capital baiana foi motivada por um propósito acadêmico e investigativo que a levou inicialmente ao Bacharelado Interdisciplinar (BI) em Artes na Universidade Federal da Bahia (UFBA), uma estrutura curricular que ela destaca como fundamental para a abertura de seus horizontes criativos. 

Vico. Foto: Pedro Pinheiro
Vico. Foto: Pedro Pinheiro

Segundo a artista, o BI oferece uma experiência essencial para quem deseja explorar o campo das artes sem uma definição imediata de área, permitindo uma experimentação vasta antes de um aprofundamento mais específico. Esse aprofundamento veio logo em seguida, quando Vico ingressou na Escola de Belas Artes (EBA), também na UFBA, onde o contato com as disciplinas teóricas de História da Arte e a convivência cotidiana com professores e colegas se tornaram o alicerce de sua prática atual, sendo essas trocas humanas e intelectuais consideradas por ela como a parte mais essencial do aprendizado artístico.

A evolução técnica de Vico acompanha seu rastro acadêmico, a artista iniciou suas experimentações com a pintura em 2018, utilizando inicialmente a aquarela, mas foi apenas em 2023 que ela deu o passo definitivo para a acrílica sobre tela, técnica que define sua produção contemporânea e que conferiu uma nova materialidade ao seu trabalho. Embora o uso das telas seja relativamente recente, o impulso criativo de Vico é uma constante que remonta à sua infância, período em que já demonstrava um fascínio por desenhar elementos que hoje são centrais em sua obra, como roupas, sapatos e composições voltadas para a moda. 

Foto: Reprodução
Foto: Reprodução

Curiosamente, mesmo sem possuir referências formais na época, ela já esboçava o que descreve como “cabelões” e figuras que remetiam à estética drag, revelando uma inclinação precoce para temas de performance e identidade que seriam amadurecidos anos depois. 

Atualmente, o espaço do ateliê é onde essa história se profissionaliza, pois, embora Vico descreva o ato de pintar como uma forma de brincadeira e diversão, ela enfatiza a existência de uma “chavinha de seriedade” que é acionada ao entrar no local de trabalho, transformando a intuição em um ofício rigoroso onde a pintura é encarada como sua profissão central.

O processo criativo da artista não parte de uma justificativa puramente racional, mas de uma necessidade visceral de colocar imagens mentais para fora, utilizando a pintura como sua linguagem primária, um canal de comunicação que muitas vezes substitui a dificuldade da expressão verbal. Vico acredita que seu trabalho é indissociável de quem ela é, sendo impossível separar sua produção artística de sua identidade como pessoa não binária, o que faz com que questões de gênero e vivências da infância transpareçam de maneira genuína e orgânica em cada tela. 

Foto: Reprodução redes sociais da artista.
Foto: Reprodução

Suas referências não se limitam ao que é visível, mas englobam sensações e memórias físicas, como a lembrança clara de se perceber pequena no mundo, passando por baixo de mesas, uma vivência que se traduz em suas pinturas através de um jogo constante com as proporções, onde o espectador é convidado a revisitar essa escala monumental do olhar infantil.

Além das memórias pessoais, o repertório de Vico é alimentado por uma paixão profunda pelo universo da moda e da cultura queer, acompanhando de perto editoriais fotográficos, como os do fotógrafo Szilveszter Makó, e desfiles de grandes marcas, elementos que influenciam as poses e as vestimentas das figuras que compõem suas cenas cotidianas. 

No campo das artes plásticas, suas influências variam entre o clássico e o contemporâneo, citando Henri Matisse como uma referência consolidada durante seus estudos na faculdade, e o artista Eduardo Bellini como uma inspiração moderna, especialmente pela forma como este aborda a temática da infância em suas obras. Para Vico, o ato de pintar é uma entrega à intuição que rejeita a autocensura; cada composição nasce de uma imagem inicial, uma pessoa em determinada pose ou um objeto específico, e vai sendo construída até que a mensagem, ou o simples prazer da forma, esteja plenamente manifestada no suporte. Assim, sua trajetória em Salvador continua a se expandir, consolidando-a como uma voz potente que utiliza a cor e a tela para narrar as complexidades do ser e do crescer.

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