A Cidade que Escreve a Si Mesma: Como Bruna Pereira e Anderson Shon Redefinem a Literatura Baiana Entre o Cotidiano, a Memória e o Futuro

Um texto sobre o trânsito entre o interior e a capital, a escuta atenta das ruas e a imaginação afrofuturista na cena literária contemporânea da Bahia

Por: Ricardo Barreto

A literatura baiana contemporânea vive um momento de vigorosa efervescência e reconfiguração estética. Longe de se restringir a gabinetes fechados ou a convenções tradicionais, a escrita produzida no estado tem ocupado ativamente o itinerário do transporte público, as salas de aula, os romances gráficos e a poesia das ruas. Trata-se de uma literatura que não pede licença: ela nasce visceralmente do território, nutre-se da observação atenta do cotidiano e projeta novos horizontes raciais e sociais. No centro desse movimento estão a escritora e pesquisadora Bruna Pereira, autora do livro de contos “As Faces Que Somos”, e o poeta, educador e quadrinista Anderson Shon, criador da aclamada HQ afrofuturista “Estados Unidos da África”. Através de linguagens e suportes distintos, ambos convergem no compromisso de tomar a escrita como um espaço inegociável de pertencimento, escuta e liberdade.

A trajetória literária de Bruna Pereira enraíza-se no Recôncavo Baiano, na cidade de Cruz das Almas, onde deu os primeiros passos na escrita. Inicialmente, a palavra surgiu de forma íntima e reservada, sem a pretensão imediata de se converter em publicação. Contudo, a transição vivida aos 19 anos, quando se mudou sozinha para a capital Salvador, provocou um deslocamento decisivo em sua percepção de mundo. O contraste entre a saudade da vida no interior e as intensas possibilidades da metrópole aguçou a sua sensibilidade artística, transformando o movimento constante entre as duas geografias no verdadeiro combustível de sua prosa ficcional.

“Acredito que essa vivência em trânsito constante entre o interior (que visito frequentemente) e a capital me fez olhar com outra perspectiva para as pessoas e situações ao meu redor, de um jeito mais atento, sensível. Isso começou a se refletir na minha escrita também.”
— Bruna Pereira, escritora, pesquisadora e autora de As Faces Que Somos

Esse olhar atento aos deslocamentos urbanos manifesta-se diretamente na matéria-prima de suas narrativas. Para Bruna, os diálogos ouvidos atentamente no transporte público — no ônibus, no metrô ou nas caminhadas pela cidade — revelam a essência de uma existência humana rica em alegrias, frustrações e opiniões. No conto Espiral, por exemplo, essa vivência pessoal traduz-se no percurso de um personagem em movimento pela cidade, que entra em contato com um objeto perdido enquanto acompanha a conversa viva entre o motorista e o cobrador. Em seu livro de estreia, As Faces Que Somos, a autora entretece memórias da própria infância, histórias de parentes e observações comunitárias — a típica fofoca de cidade pequena — para ficcionalizar os encontros e desencontros cotidianos que dão forma ao seu ponto de vista sobre o mundo.

Se Bruna Pereira apreende o ritmo da cidade através da escuta do cotidiano, Anderson Shon expande a escrita ao explorar a imaginação afrofuturista e a formação de leitores. Leitor assíduo de quadrinhos e consumidor de cultura pop, séries animadas e tokusatsu (termo japonês para filmes de efeitos especiais) desde a infância em Salvador, Shon graduou-se em Publicidade antes de descobrir a sua genuína vocação na educação. Ao especializar-se na área pedagógica e assumir as salas de aula como professor de redação, estabeleceu uma troca contínua com os estudantes: ao incentivar os jovens a escreverem, percebeu que publicar os seus próprios livros seria a forma mais concreta de servir como exemplo e motivação para a juventude.

Essa atuação pedagógica refletiu-se diretamente na versatilidade de sua produção autoral. Transitando da poesia e da crônica em obras como Um Poeta Crônico e Outro Poeta Crônico para romances, obras paradidáticas e histórias em quadrinhos — como Estados Unidos da África, A Última Revolta Malê, Não Termine Comigo, Joana e Quando As Borboletas Saem do Casulo —, Shon construiu um diálogo direto com o público infanto-juvenil, ao qual se dedica por reconhecer seu perfil questionador e leitor.

“Eu brinco que livro e livre são quase a mesma palavra, porque a literatura é sim uma manifestação genuína da liberdade.”
— Anderson Shon, poeta, educador e autor do romance gráfico Estados Unidos da África

Para Anderson Shon, a produção em quadrinhos e a literatura não funcionam como mero refúgio passivo, mas como um território de entretenimento, empoderamento e conquista de representatividade. Ao defender a necessidade de ocupar uma parcela do mercado literário para naturalizar as narrativas negras, o autor integra o afrofuturismo como extensão orgânica do seu trabalho. Ao colocar personagens negros no centro do protagonismo, Shon estrutura novos imaginários e possibilita a construção de futuros a partir das vivências raciais e diaspóricas.

Da mesma maneira, Bruna Pereira enxerga na literatura uma dimensão central de sua vida cotidiana, definindo-a como o universo que pesquisa, escreve, ensina, lê e respira. Embora reconheça os desafios enfrentados pelos autores baianos para romper bolhas editoriais e garantir presença em eventos de grande porte, a escritora destaca o crescimento do reconhecimento da produção local, reiterando a urgência de que os próprios leitores e instituições da Bahia valorizem, leiam e promovam os escritores da terra nas feiras, festivais e bienais por todo o estado.

“Acredito que a literatura baiana tem sido cada vez mais reconhecida, ocupando espaços que antes eram impenetráveis, mas ainda não é o suficiente. Precisamos ler, conhecer e reconhecer mais escritores da Bahia, querer vê-los nas feiras, festivais e bienais que acontecem por aqui, para que a gente possa ocupar esse espaço e mostrar a grandeza da literatura que tem sido escrita por nós.”
— Bruna Pereira

A convergência entre o olhar atento de Bruna Pereira e a escrita libertária de Anderson Shon evidencia a riqueza e a pluralidade da literatura baiana contemporânea. Ao transitarem entre o assento do ônibus, a memória comunitária, a sala de aula e os painéis de um quadrinho afrofuturista, ambos os autores demonstram que a escrita na Bahia permanece viva, conectada ao seu povo e empenhada em projetar novos amanhãs.

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