Resistência Sônica: Como o Rock Fincou Raízes e Floresce no Coração do Recôncavo

Um texto sobre a força, as gerações e a identidade do rock and roll no interior da Bahia

Por: Ricardo Barreto

Quem contempla o Recôncavo Baiano enxerga, de imediato, o berço lírico do samba de roda, a imponência sagrada dos terreiros seculares e o eco festivo do forró nas praças públicas. No entanto, há décadas, sob a sombra das palmeiras e nos bastidores dos casarões históricos, pulsa uma distorção grave e ruidosa que desafia qualquer estereótipo reducionista sobre a música nordestina. O rock and roll no interior da Bahia jamais foi um visitante acidental ou uma moda passageira importada da capital; trata-se de uma verdadeira cultura de resistência, moldada por gerações de músicos, produtores, fotógrafos e entusiastas que transformaram garagens rústicas em espaços de expressão autoral. Esta tradição carrega raízes profundas que remontam aos anos 1970, quando o próprio pai do rock brasileiro, o baiano Raul Seixas, percorria as ruas de Cruz das Almas. A Bahia, que gestou nomes fundamentais do rock nacional como Pitty, Marcelo Nova e Camisa de Vênus, guarda no seu interior uma energia viva que recusa a se calar.

Nesse cenário fascinante, a cena rock do Recôncavo, articulada principalmente no eixo entre as cidades de Cruz das Almas e Santo Antônio de Jesus, aprendeu a transformar a escassez estrutural em combustível criativo. Fazer rock longe dos grandes centros urbanos exige uma dose extraordinária de coragem e companheirismo. Sem incentivos do poder público e marginalizados pelos grandes circuitos comerciais, os artistas locais sobrevivem no underground graças à paixão pura e à garra coletiva. Não há estúdios requintados com isolamento acústico impecável à disposição; ensaia-se no calor sufocante de garagens comunitárias, divide-se o frete de amplificadores pesados e improvisam-se palcos onde quer que haja uma tomada e a vontade de tocar. Essa vivência rústica molda o caráter do som produzido no interior: uma música visceral, honesta e profundamente conectada com a realidade social dos seus integrantes.

A alma do metal autoral no Recôncavo encontra uma de suas vozes mais ativas em Jhoi Cardoso, vocalista da banda Fotofobia Metal e organizador do festival Oxigênio SAJ. Equilibrar a intensidade da presença de palco com a rotina estressante dos bastidores é um desafio diário para quem decide erguer um evento alternativo do zero na região. Jhoi enfrenta desde a falta de energia elétrica e cabos partidos até a busca incessante por equipamentos de som adequados para um público exigente. Em suas composições, a Fotofobia traduz sentimentos apocalípticos, horror cósmico e duras críticas sociais, optando prioritariamente por cantar em português para criar um elo direto e visceral com a juventude local.

“Os eventos undergrounds que dão oportunidade para bandas autorais e novas são os que realmente renovam a cena. Eles fazem bandas surgirem, criam novos ouvintes e provam que o rock no Recôncavo tem voz, força e futuro.”

— Jhoi Cardoso, vocalista da Fotofobia Metal e organizador do Oxigênio SAJ

Jhoi Cardoso, foto @fotofobia.metal
Jhoi Cardoso, foto @fotofobia.metal

A resiliência de manter uma banda autoral se reflete também na atuação de músicos e educadores veteranos que encontraram no Recôncavo o lugar ideal para fincar raízes. É o caso de Rafael Bittencourt. Vocalista e guitarrista da banda Solaz, Rafa trouxe de Minas Gerais, terra de tradição roqueira de bandas como Sepultura, Skank e 14 Bis, sua vasta bagagem no blues e no rock clássico. Morando há quase vinte anos em Cruz das Almas, ele sentiu a dinâmica de sua performance de palco e de suas composições ser transformada pela cadência baiana, como se percebe no single da banda Solaz ‘Por Dinheiro’. Para ele, o rock não é apenas entretenimento, mas uma postura existencial inegociável em defesa da liberdade humana.

“O rock é, por essência, um grito de rebeldia. Todo roqueiro luta para sobreviver com liberdade num mundo extremamente opressor, cruel e indiferente. Fazer arte aqui no interior é usar a música para tocar as pessoas no fundo da alma.”

— Rafael Bittencourt, vocalista e guitarrista da Solaz 

Rafael Bittencourt, foto: @‌banda_solaz
Rafael Bittencourt, foto: @‌banda_solaz

Ao lado de Rafa na Solaz e também assumindo as baquetas da Doctor Scientiae, o professor da UFRB Ossival Lolato sintetiza a paixão pela bateria e a dedicação ao ensino universitário. Ossival começou a estudar teoria musical e bateria já adulto, aos 24 anos, superando barreiras e provando que nunca é tarde para abraçar o rock and roll. Sua inquietude mental o leva a administrar múltiplos projetos musicais com um rigor impecável de compromisso e ética. Para Ossival, a grande beleza da cena autoral de Cruz das Almas reside na ausência de rivalidades apequenadas entre as bandas locais. Pelo contrário: reina uma solidariedade rústica e fraternal entre veteranos e novatos, onde a troca de experiências garante que a chama do rock continue acesa.    

“Essa troca entre gerações, receber a energia vibrante dos jovens e transmitir nosso conhecimento, é o que garante a manutenção do mundo e mantém essa roda girando forte e unida no Recôncavo.”

— Ossival Lolato, baterista das bandas Solaz e Doctor Scientiae e professor da UFRB

Ossival Lolato. Foto: @‌banda_solaz
Ossival Lolato. Foto: @‌banda_solaz

Essa engrenagem intergeracional mostra sua maior força no impacto gerado na nova formação de público, abrindo portas para a juventude que muitas vezes não se reconhece nos gêneros dominantes do comércio local. A estudante Ana Clara Dantas, de 17 anos, vivenciou essa transformação pessoal ao se mudar para Cruz das Almas em 2023. Ao frequentar o evento pela primeira vez, Ana Clara descobriu um ambiente de acolhimento, diversidade e total segurança, longe dos preconceitos que frequentemente cercam a cultura alternativa. Para ela e seu grupo de amigos, a chamada ‘temporada de rock’ representa o ápice do ano, um momento em que a juventude pode expressar sua identidade visual, usar as roupas que gosta e cantar em alto e bom som as faixas que acompanham sua rotina diária no fone de ouvido.

“O Moto Cruz consegue reunir pessoas de todos os estilos e nos fazer sentir incluídos. Nós nos arrumamos mais, nos divertimos mais e nos emocionamos ao ver as músicas que ouvimos todos os dias sendo tocadas em um grande palco na nossa frente.”

— Ana Clara Dantas, 17 anos, estudante e frequentadora da cena rock no Recôncavo

 

Quando os meses de agosto e setembro se aproximam, o underground do Recôncavo transborda das garagens para o asfalto. Eventos de grande porte como o Moto SAJ, em Santo Antônio de Jesus, e o CruzMotoFest, em Cruz das Almas, alteram profundamente a paisagem urbana das cidades. O rugido dos motores se funde com os riffs distorcidos das guitarras, atraindo milhares de motociclistas, turistas e fãs de toda a Bahia. As ruas se enchem de jaquetas de couro, coletes com brasões de motoclubes, fumaça, movimento e uma energia eletrizante que movimenta a economia e o comércio regional.

Sensível a essa estética de liberdade, a fotógrafa e organizadora do CruzMotoFest, Keyse Callidora, de 21 anos, atua há quase uma década registrando a pulsar dessa cultura sob duas rodas e sobre o palco. Trabalhando na intersecção entre o rock, o motociclismo e a fotografia, Keyse não se limita a buscar ângulos perfeitos ou enquadramentos posados. Seu olhar busca a espontaneidade crua do movimento: a gota de suor no rosto do músico em transe, o punho erguido na grade de proteção, o reflexo do sol nos cromados das motocicletas e a cumplicidade entre os olhares da multidão. Para Keyse, a união entre os motoclubes e o rock and roll compartilha o mesmo DNA de fraternidade e estrada. 

“Por trás da moto, da banda ou do evento, existem histórias, amizades e pessoas que esperam por esse momento o ano inteiro. Meu papel é congelar essa emoção e mostrar para a Bahia inteira que o Recôncavo é um polo ativo de som pesado.”

— Keyse Callidora (Keyse FotoVisual), 21 anos, fotógrafa e organizadora do CruzMotoFest

Keyse Callidora. Foto: @‌keysefotovisual
Keyse Callidora. Foto: @‌keysefotovisual

Existe, no entanto, um debate enriquecedor entre os produtores locais sobre a diferença fundamental entre eventos de motociclismo e festivais estritamente undergrounds de fomento à cultura autoral. Enquanto os encontros de motos priorizam grandes bandas cover para entreter motociclistas de diversas idades, iniciativas independentes como o Oxigênio SAJ focam 100% no fortalecimento de bandas autorais locais, abrindo espaço inclusive para diálogos com a cultura hip hop e outras vertentes urbanas. Essa complementaridade fortalece o ecossistema cultural da região: os grandes encontros motociclísticos garantem a visibilidade de massa, som de grande porte e projeção turística, enquanto o circuito underground renova o sangue da cena, encorajando garotos e garotas a pegarem em um instrumento e formarem novas bandas.

Troféu Cruz Moto Fest: @‌cruzmotofest
Troféu Cruz Moto Fest: @‌cruzmotofest

Quando os holofotes do Moto SAJ e do CruzMotoFest se apagam ao término de setembro, as bandeiras dos motoclubes são dobradas e o silêncio parece retornar às praças do interior. Mas trata-se de uma ilusão passageira. A verdadeira força do rock no Recôncavo Baiano não é medida apenas pelos três dias de festa nos grandes palcos, mas pela determinação diária de quem continua compondo, ensaiando e acreditando na arte autoral. Como conclui a própria comunidade roqueira da região, reduzir o Recôncavo a um único estilo musical é ignorar a riqueza e a pluralidade de sua juventude. As jaquetas de couro podem voltar temporariamente para os armários, mas as guitarras continuam plugadas nas tomadas das garagens, mantendo acesa a chama da resistência sônica no coração da Bahia.

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