Nostalgia nos filmes: como as empresas usam essa estratégia para lucrar

Agenda conversou com especialistas para entender como a nostalgia é usada nesse sistema de lucro

Por Laisa Gama

De diversas maneiras, filmes, notícias e músicas que há muito tempo fizeram sucesso têm a capacidade de, hoje em dia, conquistar o público. Uma referência a algo passado quando colocada da maneira ideal tem a capacidade de cativar uma nova leva de perfis interessados, seja através de uma influência pensada estrategicamente ou por uma necessidade de inovação. As indústrias cinematográficas são um bom exemplo de como fazer sucesso quando o assunto é nostalgia.

A Disney, companhia multinacional com quase 100 anos de existência, vem demonstrando há muito tempo o bom uso dessa característica. Em 1996, lançou seu primeiro filme em formato live-action, trazendo para “101 Dálmatas”, uma nova versão do desenho, lançado a princípio em 1961. Ainda este ano, está no calendário da empresa o filme “Cruella”, que irá tratar a respeito da vilã desta trama tão conhecida.

Na última década, pode-se observar como essa fórmula do sucesso a atingiu, quando diversas reproduções, adaptações e remasterizações de filmes antigos voltaram a ganhar grande público, como “A dama e o vagabundo”, “Alladin” e “Rei Leão”.  Os dois últimos, juntos, arrecadaram mais de 2 bilhões de dólares em bilheterias em todo o mundo, de acordo com dados coletados no site Box Office Mojo, site que busca expor a evolução das receitas de bilheterias.

 

 

 

Público e consumo
Para André Bomfim, Doutor em Comunicação e Cultura Contemporâneas (PósCom/UFBA), atualmente é possível observar uma exploração mais consciente e planejada do sentimento nostálgico pela indústria do entretenimento. “Não é por acaso que assistimos agora a um revival dos anos 80. As crianças e jovens dos anos 80 são hoje homens e mulheres maduros, na faixa dos 40-50 anos. Pessoas, portanto, no auge do seu potencial de consumo”, explica ele. 

É como vê a professora Carla Risso, mestre em Ciências da Comunicação pela USP ao afirmar que esse tipo de relançamento já existia antes da pandemia.

Para Carla, uma estratégia antiga da Disney de dar um prazo para que o pai ou a mãe  levem seus filhos para assistir ao primeiro longa que assistiram quando eram crianças, é bastante eficaz. Isso aconteceu comigo e minha filha. A primeira vez que levei-a ao cinema foi para ver o mesmo filme que eu vi”, conta ela.

Em 2018, por exemplo, a franquia Halloween recebeu mais uma sequência, quase 10 anos após o último filme, tendo uma arrecadação com mais de 200 milhões de dólares e conseguido por conta disso, o título de filme do gênero “Slasher” com maior bilheteria de todos os tempos, tirando o antigo posto de “Pânico”. 

Há além disso, filmes que buscam apoio tanto em elementos gráficos quanto reais. O filme “Space Jam: Um novo Legado”, com previsão de lançamento para junho deste ano, uma nova “versão” do longa de 1996, traz a presença dos personagens animados da Warner Channel como também a do astro do basquete americano Lebron James. Trazendo assim, o interesse do público de não só um segmento.

A nostalgia, para André, vem como um sentimento ainda mais prazeroso e reconfortante num momento em que o presente se apresenta desafiando nosso otimismo. Algo que com a crise sanitária de covid 19 se mostra cada vez mais claro. E assim, esse sentimento é altamente explorado pela indústria de filmes, séries, games e muitos outros. “Não há nada que não possa ser convertido pelo capitalismo em uma atividade comercial ou relação de compra e venda. A indústria de entretenimento é um ambiente mercadológico altamente competitivo e as fórmulas de sucesso, uma vez descobertas, são exploradas à exaustão”, acrescenta Bomfim.

É o que pensa o estudante de Ciências da Computação na UERJ, Vitor Alves, que para poder assistir algo tem que estar num hype gigantesco. No seu ponto de vista isso é um pouco do sentimento de nostalgia e em alguns casos também de investimento. Quanto mais tempo e dinheiro você investe em algo, para ele fica difícil parar, pois caso pare, seria um dinheiro não aproveitado. “E isso só aumenta caso a pessoa entre em algum fandom. Pois aí iria fazer amizades, a fazer teorias”, opina ele ao dizer que  tudo isso faz com que as chances de você sair desse ciclo diminuam.

Produção e pandemia
O professor na Faculdade de Comunicação, Marcos Bau, com experiência profissional nas áreas de Artes e Comunicação, diz que a nostalgia pode ser usada de diversas formas nas produções. O próprio fato de retratar filmes de épocas anteriores é uma delas. “Há maneiras de retratar o passado, tanto no sentido de valorização, trazendo características que a princípio seriam positivas, mas também trazer narrativas que trazem isso de maneira cruel. Isso não é incomum”.

E com a pandemia, já podemos observar esse sentido nostálgico nas últimas produções? Para Marcos, sim, principalmente levando em consideração obras que estão retratando a crise sanitária enfrentada por todos. “O que chama mais atenção é o que está sendo produzido sobre isso. Esse tipo de cotidiano e realidade assustadora. Em geral, há uma abordagem de uma vivência muito mais dura e cruel durante esse momento, o que nos faz remeter a uma vida que antigamente era muito melhor”, conta ele.

Há muitos exemplos disso no segmento de curta-metragens. No Brasil, desde abril do ano passado, o Instituto Moreira Salles (IMS) através de seu programa “Convida”, vem fomentando a criação nesse momento pandêmico. Já são cerca de 170 artistas, seja de maneira individual ou coletiva convidados a participar, uma delas foi a mineira Grace Passô. “República”, produzido para o programa Convida, foi vencedor no 53º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, como melhor curta do Festival e também um dos vencedores do Prêmio Abraccine 2020, promovido pela Associação Brasileira dos Críticos de Cinema.

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